quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Teias de aranhas.


TEIAS DE ARANHAS.


Era tarde quando acordou. O fim de semana havia sido por demais agitado, condizente com o que esperava, sem nenhuma surpresa boa ou ruim... Ficou ali, a olhar para o teto sujo, repleto de teias de aranha, que tanto queria limpar, mas nunca concretizava o desejo...  Era o tal do adiamento sem fim, cada dia mais o teto ficava sujo, e ela nunca limpava. Os fios pendurados,  sempre que queria ligar a luz, precisava tomar muito cuidado com os fios, algumas vezes vinha-lhe um choque.

Não que isso seja relevante, porém,  o cheiro de mofo que adentrava em suas narinas fazia-lhe ficar impaciente. Precisava de um banho, carecia urgentemente tirar toda aquela crosta que estava em sua pele, todo o cheiro do sexo, do cigarro, o gosto ruim na boca, limpar o cu.

Do chuveiro, saía água quente, embora fosse preciso sintoniza-lo bem, pois se deixasse que a água corresse muito, ficava fria. Então ela era obrigada a banhar-se com uma água fraca, sem muita potência, o que lhe causava uma certa raiva. Para relaxar, tentava um ato de blandície, meio em vão, acariciando  a xoxota, lavando-a delicadamente – meio que esperando por um orgasmo- com seu sabonete íntimo. Lavou os cabelos, e enquanto o creme agia, raspou as pernas.Só as pernas. Era a sua maior urgência no momento. Pegou um café, acendeu um cigarro e deitou-se com a cabeça no travesseiro alto. Tomou o café devagar, fumou o cigarro até o último trago possível, o que lhe queimou um pouco a boca, e começou a pensar no que iria vestir, em como iria começar a semana. Era sempre um dilema iniciar, na segunda-feira, todo aquele processo de responsabilidades, que nem ela mesma sabia por onde começar.

Deitada ali, em sua colcha de chenile, começou a retroceder... Agindo assim, era como se o seu final de semana, que lhe provocara tanto saudosismo, ainda não tivesse acabado... Mas acabara, acabou, já era...  Iniciada a espirradeira, levantou-se. Era alérgica a quase tudo que tinha em seu quarto, não podia ficar muito tempo ali. Tinha de sair, logo.

Ao olhar para suas roupas, se sentia particularmente feia naquela tarde, pensou em vestir algo bem prático. Quando não se sabe bem onde se quer ir, é difícil escolher o que vestir. Então, se enrolou na toalha amarela e voltou à cama, a fim de retroceder mais um pouco. Seus olhos então começaram a brilhar, olhando para as teias sentia uma felicidade grande. Começou a cingir. Queria gozar, olhou então para a “quina” da cama e sentiu um tesão indescritível, uma alegria de criança, pueril, ficou molhada. Então colocou a toalha delicadamente na parte em que iria se esfregar e começou a rebolar ali, como se estivesse entrando num membro grosso, trêmulo e duro.Aquele era o seu momento. Deu umas reboladinhas apressadas, depois parou a fim de controlar o espasmo, em seguida rebolou ainda mais, ele já estava por vir, era gostoso poder adia-lo.... O gozo da peraltice era muito gostoso, egocêntrico, competente... Queria gritar, mas não podia. Então, depois de se sentir incrivelmente anética, decidiu que era hora de vestir a roupa.

Vestiu uma calcinha  estampada, uma calça jeans e uma blusinha. Calçou uma sandália confortável, e acendeu outro cigarro. Ao deitar novamente em  sua cama, olhou mais atentamente para cima, e viu, lá estavam duas pequenas aranhas a descer pelo fio de luz.  Há quem odeie as aranhas.  Ouvia uma música, da casa vizinha, um som frenético, alto e perturbador. A música falava de uma mulher que queria sempre o mesmo cara, que sempre estaria ok pra ela .. Era um som que se repetia, como se toda a música estivesse programada para repetir sempre... repeat, repeat... Aquele barulho não a incomodava, ela sentia uma espécie de excitação estranha. Voltou a sentir vontade de se esfregar na cama. Não o fez, dessa vez não. Mas sentia uma estranha vontade de dançar aquilo...
Ficou ali ouvindo a música , ensaiou uma dança frente ao espelho, acendeu outro cigarro, fumou, acendeu outro, olhou para cima mais uma vez. As aranhas haviam sumido. Aquelas teias estavam cobrindo as telhas. Nem ela entendia o porquê daquilo tudo. Não sentia a menor vontade de limpar aquela coisa toda que estava cada dia mais presente em seu quarto. Por um instante, voltou a esquecer...
Já passava da hora de fazer algo, lembrou que precisava comer. Não que quisesse, era o simples fator fisiológico. Pegou um resto de feijão e macarrão, juntou tudo numa frigideira, estalou dois ovos e antes que as gemas endurecessem retirou-os da panela encharcada de manteiga. Ainda tinha um resto de coca sem gás, engoliu com outro cigarro. Cortou um tomate e uma cebola, colocou pimenta em tudo e sentou-se para a sua refeição. Enquanto comia pensava em sexo e aranhas.Regurgitava.Difícil engolir o que não se quer.

            Era preciso fazer algo, o enfado estava muito grande. Lembrou-se então que poderia arrumar seu quarto, numa tentativa desesperada de passar o tempo. Uma ótima alternativa era faxinar, quem sabe organizava toda aquela bagunça interna, o ócio. Lembrou que ainda tinha uma poeira, fez um charuto e ficou deitada na cama, olhando o teto sujo enquanto fumava aquele back . Viu várias aranhas brincando de escorregar, num tobogã gigante feito de fios brancos, jogou a cinza no prato que havia comido, fumou quase toda a poeira que tinha e decidiu que era a hora de arrumar tudo aquilo. Começou pelo guarda-roupa. Retirou todas as roupas, jogou-as no chão e começou então a dobra-las, uma por uma, numa paciência estranha. Tirou umas peças que não mais lhe cabiam, juntou no canto. Na parte superior do móvel, havia uma caixa azul. Repleta de papéis inúteis que ansiavam por sair dali. Ela olhou tudo, mas não teve coragem de se desfazer de nada. Os sapatos eram poucos, nem pensar em tirar algum do lugar... Muito mofo em tudo, roupas mofadas, alma mofada. As aranhas estavam a observar atentamente os passos daquela mulher, pararam a euforia no parque só para vê-la brincando de arrumar. Por um instante chegaram a se preocupar com aquele súbito momento de higiene. Queriam mesmo que ela saísse de uma vez.

            A roupa de cama estava suja, precisava trocar. Pegou um jogo de lençol estampado com florzinhas e colocou no lugar do outro, também de florzinhas. A cama velha de ferro estava agora mais limpa, mas sem o cheiro leve de sexo que continha, fruto de suas esfregadelas.
A música havia cessado. Foi fazer xixi. Voltou para o quarto, tirou a calça jeans que lhe apertava a xana e enrolou-se na toalha amarela. Hora da pausa.. Dessa vez pegou o controle remoto, abriu bem as pernas como se quisesse abarcar o mundo, e o esfregou nela, estava super molhada. E gozou muito enquanto suas aranhas a espreitavam, todas excitadas com aquele movimento frenético. Depois da euforia foi enxugar o controle. Ligou a TV, precisava de algum barulho para continuar a arrumação. O controle teimava em funcionar, então mexeu nas pilhas e tentou novamente. Deu certo.

            Não conseguia sair da cama, esticou o braço e pegou outro cigarro, cobriu-se com a toalha. Observou a TV, assistia, mas não via nada, a mente flutuava, apagou o cigarro, acendeu o resto da baga, fumou.  Sentou-se, viu que tinha outra caixinha, cinza, do lado da cama. Abriu-a. Encontrou duas caixinhas de creme dental, uma pomada que havia utilizado na cicatrização de sua tatuagem, uma caixa de agulhas de vários tamanhos, uma lixa de unha velha, algumas pilhas, um carretel de linha cor preta e uma tesoura azul, além de alguns grampos de cabelo. Lambeu um pouco do creme dental, pegou um cigarro, melou-o todo de gel e fumou de novo.
Sentiu uma vontade louca de tomar um café, ainda tinha um resto de pó no frasco, grudado. Ferveu a água, derramou dentro do pote e misturou tudo, colocou açúcar, despejou o líquido dentro de um copo e voltou pro quarto. O café não ficara muito bom, mas era o que tinha.. Resolveu se dar conta do que passava na televisão, era um filme meloso, goiaba, tipo sessão da tarde. Havia uma mulher no filme, uma empregada que se apaixonara pelo patrão, que levava ponta da mulher... Assistiu o resto do filme, final bem previsível.Por um breve momento aquele tédio passou, sentiu-se animada.
Chegava então a hora de deitar e olhar o teto. As aranhas continuavam ali... Esperando algo que ela não sabia o que era... Atônitas, olhando fixamente para baixo, como se quisessem descer dali... Várias aranhas num único movimento...
Foi daí então que uma delas iniciou um movimento para a direita... Outra para a esquerda... Estavam mais tranqüilas, ao menos naquele dia não seriam expulsas de casa, algumas estavam por dar à luz. A dona do quarto então dormira.
Agora, profundamente....

Cíntia Santos da Silva.
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