quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Flor de lis.


Flor de lis.


Debaixo do mamoeiro ela saboreava o fruto com semente e tudo. Era uma daquelas tardes de preguiça, em que se almoça e se lesa todo o juízo.
Lambuzou-se bastante e adormeceu. Um sono profundo, sem direito a sono, nem pesadelo. Apenas apagou.

            Quando abriu os olhos, deu-se conta que já era fim de tarde. Sua barriga não estava mais tão cheia. Mas a leseira não permitia que se levantasse, ainda.
“Levanta daí Sebastiana!” – Era Dona Maria Isabel, já solicitando a presença da filha para preparar o jantar. A moça levantou. Não que o quisesse, mas era necessário.
A casa de taipa era espaçosa, quatro vãos grandes. O cheiro da comida se alastrava pela vizinhança, as meninas da casa eram muito prendadas.
Sebastiana era a mais velha de oito irmãos. O primogênito de Dona Maria sempre ia para a roça com o pai, trabalhar na plantação de milho e mandioca.

            Depois de feitas as tarefas, as meninas iam para a escola. Sebastiana já estava começando a se preocupar porque aquele seria seu último ano. Se quisesse e se seu pai, Seu Manuel, a deixasse estudar, teria que ser em Própria, cidade vizinha. Era lá que ela teria que concluir o segundo grau. Não que seu pai implicasse com os estudos das filhas. Não era isso. O que ele tinha era preocupação mesmo de deixar suas filhas saírem de perto de casa. “A estrada é muito perigosa, minha filha. Mas vamos ver, seja o que Deus quiser.”
Sebastiana dividia seu dia em etapas. Pela manhã ia lavar roupa no rio, onde aproveitava para se banhar. Depois voltava para ajudar no almoço, comia e lá ia ela comer mamão. Dormia, dormia... Levantava, ia cuidar do jantar, depois escola.
Gostava de estudar. Queria muito sair dali, como tantas outras moças da sua idade. Mas estava particularmente animada aquela tarde. Era sexta-feira, e no sábado haveria um baile.

            Os bailes em São Brás eram verdadeiros acontecimentos. Ocorriam na única discoteca da cidade, e muitos jovens iam lá se divertir. Sebastiana queria muito ir, mas sabia que teria de dar um jeito, seus pais não permitiriam que fosse.
São Brás é uma cidade que não evoluiu com o tempo. Ainda tem discotecas, que terminam sempre meia-noite, ainda tem gente que acredita que as filhas casam virgens.
Os pais de Sebastiana certamente acreditam que ela nunca transou com ninguém. Não é verdade. Ela sempre deu seus jeitinhos... Já deu pra uns quatro caras, todos de outras cidades, não podia se expor tanto. Sabia usar camisinha, sabia tomar pílula. Uma moça do interior esperta.

            No sábado, ela fez todos os seus afazeres, tomou seu banho e foi deitar. Enfim, aquela ladainha de sempre, teve que esperar que todos dormissem, para que pudesse sair pela janela. Suas irmãs, as mais velhas eram medrosas, nem ousavam fazer esse tipo de coisa. Afrontar Seu Manuel? Nem pensar. Ela teria de ir sozinha mesmo, nada de cúmplices.
Arrumou-se, pôs um vestidinho curto estampado, pegou o pacote de camisinhas, enfiou na calcinha e foi tratar de esquecer a vida por um instante.

            O baile, como sempre animadíssimo, contava com a presença das moças mais modernas, descoladas. Dona Salete, dona do estabelecimento, sempre caprichava na decoração. Antigamente eram luzes coloridas, quando se chegava via-se logo aquele monte de luzes coloridas sem piscar, na portaria. Hoje em dia, tem até fumacinha que ajuda a criar um clima gostoso.
Sebastiana entrou e começou a procurar alguém que pudesse lhe fazer uns carinhos.  A música estava bem a contento, o som pedia por sexo. Ela também.
Ela queria muito uma cerveja, mas não tinha mais um centavo, já tinha sido um sacrifício conseguir o dinheiro da entrada, roubou do pai.
Não foi difícil conseguir quem lhe pagasse umas.

            Lá pela quinta cerveja ela já via todo mundo bonito. Estava louca pra transar. Mirou no cara que lhe pagou as cervejas, queria agradecer-lhe. Lançou-lhe um olhar sugestivo, ele veio ao seu encontro e começaram a dançar intimamente. Precisavam sair dali. Foram até o carro, o cara arrastou até um matagalzinho próximo e lá transaram como dois loucos. Gastaram todas as camisinhas que tinham, era a hora de ir embora.
Ela foi para casa rindo, levemente embriagada, saciada. Entrou devagar, adormeceu logo.

            Era sempre assim, Sebastiana esperava ansiosamente por  cada baile, cada procissão, cada quermesse. E assim foi até o término do ano letivo. Com muito custo conseguiu com que seus pais lhe deixassem estudar fora. Agora tudo estava mais fácil.
Todas as noites ela pegava o ônibus cedido gentilmente pela prefeitura e ia estudar. Era gostoso estudar, mas a mocinha sabia que não seguiria qualquer carreira. Não seria médica, advogada ou dentista, não seria professora. Queria mesmo é ganhar dinheiro com o que sabia fazer de melhor: sexo.
Estava tudo decidido, a partir daquele momento, iria ganhar dinheiro com os seus talentos. O que foi muito fácil.

            Depois de algumas orgias – ela topava tudo- comprou um celular, colocou até anúncio no jornal com seu telefone a disposição de clientes. “ Morena gostosa, peitinho duro e bunda grande. Prometo levar você à loucura. Aceito homens, mulheres e casais.” Foi uma loucura mesmo, o telefone não parava de tocar. Já era a hora de sair de casa, precisava de um pretexto, um emprego talvez.
Seu anúncio foi um sucesso, era difícil encontrar garotas de programa ali. Muitos homens e casais a procuravam. Atendeu somente a uma mulher até então. Era uma mulher estranha, que lhe pagou muito bem só para ser chupada.

            Conseguiu sair de casa. Agora estava livre durante o dia e a noite para atender seus clientes. Investiu mais no visual, nem aprecia mais aquela mocinha bobinha de interior. Estava com cara de puta mesmo. Uma bela puta. Sempre atendia seus clientes com uma máscara. Ficava muito sensual, e até então todos haviam gostado.
Atendia todos os horários, uma verdadeira plantonista. Estava lucrando muito.
Algumas vezes ficava cansada, normal. Mas nunca recusava um chamado, a menos que estivesse ocupada.
Uma tarde, uma mulher lhe telefonou. Marcaram um encontro, transaram muito e depois a cliente lhe ofereceu uma proposta, aparentemente irrecusável. Tinha adorado a Sebastiana, que atendia por “Solange”, e queria que ela fosse para a capital, fazer programas de luxo.

            Faltava uma semana para ela partir quando atendeu um telefonema. Um homem estava querendo seus serviços. Ela nem estava muito a fim, mas precisava arrecadar o quanto pudesse para a viagem. Não sabia como iria ser na capital, precisava se prevenir. Marcou o encontro em seu apartamento.
Preparou-se, colocou sua máscara e ficou esperando pelo cliente.
O homem chegou. Tocou a campainha, ela perguntou a senha, ele disse “amora”.
“Entre querido!”
Ela já estava muito à vontade na cama, como sempre com sua máscara. O homem então se aproximou.
Seu sangue perdeu-se da face e do corpo quando o viu. Era Seu Manuel, seu pai, ali, esperando para transar com ela. Por um breve momento pensou. Tinha de decidir rápido. “ Não posso transar com meu pai!!!” “ Que merda!”
Também não podia contar-lhe que virara puta. Abriu uma cerveja, deu a ele. Abriu outra pra si.
E teve ali, a experiência mais traumatizante de toda a sua vida, Seu pai lhe comeu de diversas formas. Pagou, foi embora envergonhado. Não conversaram, ela não podia falar, ele reconheceria sua voz.
Ficou ali parada, com a máscara no rosto, atônita, muda, chocada. Decidiu ir até o fim, não podia retroceder. Queria sair dali, queria ir .
Dessa vez adormeceu com muito custo. Não atendeu mais ninguém aquela noite.
Pegou o primeiro ônibus para a capital. Enquanto viajava, relembrou os momentos que teve com seu pai. As suas lições, as conversas... Derramou algumas lágrimas. Sabia que jamais poderia olha-lo outra vez. Despediu-se ali dele, da família, de tudo.

            Chegou à capital duas horas depois. E tomou outra decisão importante. Jamais voltaria a usar máscaras.
Sabia bem que a vida é uma caixinha de surpresas...

Cíntia Silva.

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