quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Flor de lis.


Flor de lis.


Debaixo do mamoeiro ela saboreava o fruto com semente e tudo. Era uma daquelas tardes de preguiça, em que se almoça e se lesa todo o juízo.
Lambuzou-se bastante e adormeceu. Um sono profundo, sem direito a sono, nem pesadelo. Apenas apagou.

            Quando abriu os olhos, deu-se conta que já era fim de tarde. Sua barriga não estava mais tão cheia. Mas a leseira não permitia que se levantasse, ainda.
“Levanta daí Sebastiana!” – Era Dona Maria Isabel, já solicitando a presença da filha para preparar o jantar. A moça levantou. Não que o quisesse, mas era necessário.
A casa de taipa era espaçosa, quatro vãos grandes. O cheiro da comida se alastrava pela vizinhança, as meninas da casa eram muito prendadas.
Sebastiana era a mais velha de oito irmãos. O primogênito de Dona Maria sempre ia para a roça com o pai, trabalhar na plantação de milho e mandioca.

            Depois de feitas as tarefas, as meninas iam para a escola. Sebastiana já estava começando a se preocupar porque aquele seria seu último ano. Se quisesse e se seu pai, Seu Manuel, a deixasse estudar, teria que ser em Própria, cidade vizinha. Era lá que ela teria que concluir o segundo grau. Não que seu pai implicasse com os estudos das filhas. Não era isso. O que ele tinha era preocupação mesmo de deixar suas filhas saírem de perto de casa. “A estrada é muito perigosa, minha filha. Mas vamos ver, seja o que Deus quiser.”
Sebastiana dividia seu dia em etapas. Pela manhã ia lavar roupa no rio, onde aproveitava para se banhar. Depois voltava para ajudar no almoço, comia e lá ia ela comer mamão. Dormia, dormia... Levantava, ia cuidar do jantar, depois escola.
Gostava de estudar. Queria muito sair dali, como tantas outras moças da sua idade. Mas estava particularmente animada aquela tarde. Era sexta-feira, e no sábado haveria um baile.

            Os bailes em São Brás eram verdadeiros acontecimentos. Ocorriam na única discoteca da cidade, e muitos jovens iam lá se divertir. Sebastiana queria muito ir, mas sabia que teria de dar um jeito, seus pais não permitiriam que fosse.
São Brás é uma cidade que não evoluiu com o tempo. Ainda tem discotecas, que terminam sempre meia-noite, ainda tem gente que acredita que as filhas casam virgens.
Os pais de Sebastiana certamente acreditam que ela nunca transou com ninguém. Não é verdade. Ela sempre deu seus jeitinhos... Já deu pra uns quatro caras, todos de outras cidades, não podia se expor tanto. Sabia usar camisinha, sabia tomar pílula. Uma moça do interior esperta.

            No sábado, ela fez todos os seus afazeres, tomou seu banho e foi deitar. Enfim, aquela ladainha de sempre, teve que esperar que todos dormissem, para que pudesse sair pela janela. Suas irmãs, as mais velhas eram medrosas, nem ousavam fazer esse tipo de coisa. Afrontar Seu Manuel? Nem pensar. Ela teria de ir sozinha mesmo, nada de cúmplices.
Arrumou-se, pôs um vestidinho curto estampado, pegou o pacote de camisinhas, enfiou na calcinha e foi tratar de esquecer a vida por um instante.

            O baile, como sempre animadíssimo, contava com a presença das moças mais modernas, descoladas. Dona Salete, dona do estabelecimento, sempre caprichava na decoração. Antigamente eram luzes coloridas, quando se chegava via-se logo aquele monte de luzes coloridas sem piscar, na portaria. Hoje em dia, tem até fumacinha que ajuda a criar um clima gostoso.
Sebastiana entrou e começou a procurar alguém que pudesse lhe fazer uns carinhos.  A música estava bem a contento, o som pedia por sexo. Ela também.
Ela queria muito uma cerveja, mas não tinha mais um centavo, já tinha sido um sacrifício conseguir o dinheiro da entrada, roubou do pai.
Não foi difícil conseguir quem lhe pagasse umas.

            Lá pela quinta cerveja ela já via todo mundo bonito. Estava louca pra transar. Mirou no cara que lhe pagou as cervejas, queria agradecer-lhe. Lançou-lhe um olhar sugestivo, ele veio ao seu encontro e começaram a dançar intimamente. Precisavam sair dali. Foram até o carro, o cara arrastou até um matagalzinho próximo e lá transaram como dois loucos. Gastaram todas as camisinhas que tinham, era a hora de ir embora.
Ela foi para casa rindo, levemente embriagada, saciada. Entrou devagar, adormeceu logo.

            Era sempre assim, Sebastiana esperava ansiosamente por  cada baile, cada procissão, cada quermesse. E assim foi até o término do ano letivo. Com muito custo conseguiu com que seus pais lhe deixassem estudar fora. Agora tudo estava mais fácil.
Todas as noites ela pegava o ônibus cedido gentilmente pela prefeitura e ia estudar. Era gostoso estudar, mas a mocinha sabia que não seguiria qualquer carreira. Não seria médica, advogada ou dentista, não seria professora. Queria mesmo é ganhar dinheiro com o que sabia fazer de melhor: sexo.
Estava tudo decidido, a partir daquele momento, iria ganhar dinheiro com os seus talentos. O que foi muito fácil.

            Depois de algumas orgias – ela topava tudo- comprou um celular, colocou até anúncio no jornal com seu telefone a disposição de clientes. “ Morena gostosa, peitinho duro e bunda grande. Prometo levar você à loucura. Aceito homens, mulheres e casais.” Foi uma loucura mesmo, o telefone não parava de tocar. Já era a hora de sair de casa, precisava de um pretexto, um emprego talvez.
Seu anúncio foi um sucesso, era difícil encontrar garotas de programa ali. Muitos homens e casais a procuravam. Atendeu somente a uma mulher até então. Era uma mulher estranha, que lhe pagou muito bem só para ser chupada.

            Conseguiu sair de casa. Agora estava livre durante o dia e a noite para atender seus clientes. Investiu mais no visual, nem aprecia mais aquela mocinha bobinha de interior. Estava com cara de puta mesmo. Uma bela puta. Sempre atendia seus clientes com uma máscara. Ficava muito sensual, e até então todos haviam gostado.
Atendia todos os horários, uma verdadeira plantonista. Estava lucrando muito.
Algumas vezes ficava cansada, normal. Mas nunca recusava um chamado, a menos que estivesse ocupada.
Uma tarde, uma mulher lhe telefonou. Marcaram um encontro, transaram muito e depois a cliente lhe ofereceu uma proposta, aparentemente irrecusável. Tinha adorado a Sebastiana, que atendia por “Solange”, e queria que ela fosse para a capital, fazer programas de luxo.

            Faltava uma semana para ela partir quando atendeu um telefonema. Um homem estava querendo seus serviços. Ela nem estava muito a fim, mas precisava arrecadar o quanto pudesse para a viagem. Não sabia como iria ser na capital, precisava se prevenir. Marcou o encontro em seu apartamento.
Preparou-se, colocou sua máscara e ficou esperando pelo cliente.
O homem chegou. Tocou a campainha, ela perguntou a senha, ele disse “amora”.
“Entre querido!”
Ela já estava muito à vontade na cama, como sempre com sua máscara. O homem então se aproximou.
Seu sangue perdeu-se da face e do corpo quando o viu. Era Seu Manuel, seu pai, ali, esperando para transar com ela. Por um breve momento pensou. Tinha de decidir rápido. “ Não posso transar com meu pai!!!” “ Que merda!”
Também não podia contar-lhe que virara puta. Abriu uma cerveja, deu a ele. Abriu outra pra si.
E teve ali, a experiência mais traumatizante de toda a sua vida, Seu pai lhe comeu de diversas formas. Pagou, foi embora envergonhado. Não conversaram, ela não podia falar, ele reconheceria sua voz.
Ficou ali parada, com a máscara no rosto, atônita, muda, chocada. Decidiu ir até o fim, não podia retroceder. Queria sair dali, queria ir .
Dessa vez adormeceu com muito custo. Não atendeu mais ninguém aquela noite.
Pegou o primeiro ônibus para a capital. Enquanto viajava, relembrou os momentos que teve com seu pai. As suas lições, as conversas... Derramou algumas lágrimas. Sabia que jamais poderia olha-lo outra vez. Despediu-se ali dele, da família, de tudo.

            Chegou à capital duas horas depois. E tomou outra decisão importante. Jamais voltaria a usar máscaras.
Sabia bem que a vida é uma caixinha de surpresas...

Cíntia Silva.

Filho da mãe.


Filho de mãe.

Dia de escola é sempre uma chatice. Acordar cedo, vestir a roupa sem tomar banho, porque ninguém merece tomar banho às seis da manhã. Ahhhhh, e sair só com um copinho de leite no estômago. É lasca comer tão cedo.
Mamãe me deixa no ponto de ônibus, ela me acha muito grandinho para ir à escola sozinho. Diz-me sempre que preciso ter responsabilidades e tal.

Moramos somente eu e minha mãe. Meu pai? Bem, ela me diz que já morreu, mas desconfio que esteja bem vivo, provavelmente em alguma prisão. Mamãe se meteu em muitas encrencas por causa do sujeito. Eu sei porque minha avó me contou,  minha mãe nunca fala sobre ele. Mas eu acredito mesmo que ele esteja em um presídio, e que irá vir me ver quando acabar de cumprir sua pena. Eu já vi isso acontecer em vários filmes. Filmes e novelas.

Não que eu queira vê-lo, não. É apenas uma curiosidade em saber quem engravidou minha mãe. Acho que isso é normal. Tipo, gostaria de saber por outra pessoa o que houve de fato.
Minha mãe trabalha o dia todo, todos os dias. Eu vou à escola, depois volto para casa e por lá fico, sem ter muito o que fazer, um saco. Algumas vezes vou brincar com a galera da rua. Gosto também de ficar olhando as gurias que passam de cinto pela rua. Elas usam só o cinto, nada de saias. Gosto de olhar o rabo delas. Me sinto bem o resto do dia.

            É assim desde que nasci, passo a maior parte do tempo sozinho. Tenho um vídeo-game velho que a patroa de mainha me deu. Aqui em casa quase tudo foi dado, minha mãe faz faxina na casa dos outros, e como esse povo rico sempre se desfaz das coisas, acaba vindo tudo pra cá.
Já ganhamos sofá, mesinha de telefone, que mainha coloca um vasinho em cima. Até termos um telefone. Uma máquina de lavar que não funciona, fica lá no quintal entulhada, minha cama também foi dada, assim como a de minha mãe.
A nossa geladeira não. Essa foi comprada mesmo, ainda nem terminou-se de pagá-la. A prestação é cara, o que causa um certo nervosismo em minha mãe.
            Eu estudo de segunda à sexta, como todo mundo. Aos sábados, normalmente vou ficar com  minha avó, ela mora aqui perto. Vovó Creusa também ganhou quase tudo que tem em casa, às vezes ela me passa alguma coisa. No meu quarto tem uma mesinha de computador que ganhei dela. Está lá,como eu, esperando o computador. Eu uso a internet, tem uma lan house aqui pertinho, custa um real a hora. Sempre junto umas moedinhas para ir lá. Curto os jogos .
Mas o que eu gosto mesmo nos sábados é da possibilidade de ver a Ritinha. Ela é uma dessas garotas gostosas, pernas grossas, rabo grande, toda boa a Ritinha. E safada. Muito safada mesmo.
            Outro dia a vi se esfregando com o Douglas atrás do caminhão. Senti uma raiva da porra, queria muito estar no lugar dele, ali enfiando a mão nos peitinhos dela.
A Ritinha, Rita de Cássia, é filha de Solange, que mora duas casas depois de minha avó. Eu até já pedi à minha avó pra morar com ela, mas Dona Carmem me disse em tom bem sonoro “ Teu lugar é ao lado de tua mãe!”. Bosta.
Um dia eu pego a Ritinha. Putz, quando eu apareço lá que ela não está, fico mal. Perco o dia mesmo. Ultimamente tenho ficado muito de pinto duro. Fico de pinto duro quando vejo a Ritinha, e quando não a vejo também.
            Uma tarde, eu tava no meu quarto e pensei nela, fiquei excitado.  Queria um buraco para enfiar meu pinto. Não tinha, dobrei o travesseiro e já era. Nossa, já estava quase gozando quando minha mãe chegou e viu aquilo tudo. Merda! Ela tinha de chegar mais cedo logo naquele dia cara! Levei a maior surra de minha vida. E ainda tive de lidar com a vergonha de olhar para ela um tempão.
Eu queria muito que minha mãe, Sônia é o nome dela, arrumasse um cara legal, tipo tivesse outro filho e talz. Acho que ela iria esquecer um pouco de mim né? E iria ser mais feliz também, seus olhos vivem tristes. Sempre. Tipo, ela reclama quando acorda, quando vai dormir, quando recebe dinheiro porque diz que ta todo comprometido, reclama também quando lhe atrasam a grana. Caralho! Ela só vive reclamando bixo!
            O Josivaldo, dono da mercearia, é louco pela minha mãe. Não é porque é minha mãe não, mas cara, ela é bonita pra burro! Maior morenão. Novinha ainda, e não arruma um único namorado sequer. Minha avó me contou que ela era muito doida, fumava uma maconha lerda, dava pra quase todo mundo do bairro, inclusive pro meu pai e tal. Até que engravidou de mim. Ficou muito puta, minha avó sempre jogou duro com ela, nunca tomou conta de mim pra nada. Rolavam os bailes, as baladas e minha mãe se fudia porque tinha de ficar comigo. Aí, foi se tornando amarga com o tempo, e hoje em dia que já estou grande, ela não quer mais saber de nada.
Minha avó também se fudeu pra tomar conta dela. Minha família só se fode, cara.
Comigo vai ser diferente. Vou comer várias, não vou engravidar nenhuma, vou ter minha grana e vou curtir muito. Esse lance de filho é meio sinistro.
            Domingo é uma verdadeira merda. Normalmente é minha avó quem vai lá pra casa, fica lá conversando um monte de besteiras com a filha e me alugando, como sempre. Tem dias que elas compram umas cervejinhas e tal, quer dizer quem vai comprar sou eu. É quando as vejo felizes, dão risada pra caralho, assistem aqueles programas insuportáveis de domingo. Algumas vezes minha avó até dorme com a gente. Aí, pra fechar o domingão com chave de ouro, termino meu domingo no sofá duro, o que é massa, porque já vou pra escola na segundona puto da vida e cheio de dor nas costas. Tem sábados que eu consigo dormir com minha avó, por causa da Ritinha claro. Poxa, ela tem um vestidinho lilás, desses que ficam meio soltos, mas que mostram quase tudo, e ainda por cima balançam com o vento. Ela adora usar este. Sabe que é a maior gostosa e se prevalece disso, como a maioria das mulheres gostosas.Ela acaba comigo.
            Tirando a Ritinha, a outra mulher que mexe comigo é Dona Rose, ela trabalha na secretaria do colégio, é a secretária mais gostosa que já vi na vida. Também nem tchum pra mim. Essa fase que a gente nem é menino nem é homem é foda, tipo, eu nem jogo mais bola, nem pego ninguém. E ainda por cima sou cheio de espinhas, tenho umas cabulosas nas costas. Já me recomendaram óleo de cozinha, passei mais de uma hora até tirar aquele troço grudento de mim, fiz isso várias vezes e nada. Minhas espinhas são nervosas.

            Tem uns guris na rua da minha vó que vivem doidões. Outro dia vi a Ritinha saindo com um deles. Ela ficava toda estranha, agitada mesmo com os caras. Percebi que tava cheirando. Foi aí que ferrou tudo. Ela começou a dar pros caras em troca da “frenética”, do pó. Tipo, ela já não tirava mais o vestido lilás do corpo. Cada um luta com as armas que tem.
Vez ou outra rolavam uns bailes funk lá na área. Minha avó nunca me deixava ir. Aí, rolou um sábado que fiz o seguinte: fui pra casa de minha vó, como sempre, e disse a ela que voltaria pra casa, como sempre. E disse à minha mãe que iria dormir lá, tudo isso pra ir ao baile. Confusão da porra! Justo nesse dia, eu tava lá no maior pancadão, quando começou a rolar treta! Os policiais chegaram, rolou o maior estresse, um carinha lá se inchou e começou a atirar, Deu o maior rebuliço. Eu me abaixei, sei que é o melhor a se fazer nesses casos. Depois de muita confusão, eu lá, ainda deitado, senti uma mão em meu ombro. Era um tira.
“E aí, guri? Fazendo o que aqui?” Fiz aquela cara de cu e respondi que tava curtindo o baile. Ele me mandou vazar. Mas antes de sair vi nitidamente um tira atirando num figura lá. Tive que conviver com isso. Durante uma semana elas não souberam de nada. Depois, óbvio, tudo veio à tona. A gente inventa as mentiras e acha que ninguém vai descobrir. Porra nenhuma, descobriram o principal: que eu fui ao baile, justamente o que elas não precisavam saber. Porque a morte do Geribas foi o assunto do mês. Azar do cacete!
            Pronto. Depois dessa ficou meio lento o processo de reconquistar a confiança das negas. Elas viviam cabreiras. Nada colava, nem verdades nem mentiras. Minha mãe não queria mais que eu fosse pra casa de minha avó aos sábados. Até parece que eu só aprontaria aos sábados.
Fiquei nessa um tempinho, até que elas foram meio que esquecendo o ocorrido. Uns oito sábados depois, minha mãe me pediu para ir ficar com minha avó, que estava doente. Essa gordurada toda que ela curte deixou seu colesterol nas alturas. Aí eu fui. Tava louco de saudades da Ritinha. Mas me assustei quando a vi. Ela tava gorda, feia mesmo, inchada.
“Ta grávida, aquela putinha”, me contou o Fabinho. “Ninguém sabe quem é o pai”.Eu soube que ela tentou tirar, mas não deu certo. O remédio falhou. O Fabinho me falou que acham que ela engravidou numa noite em que saiu com uns quatro caras do morro. E tipo todos comeram ela, de tudo que foi jeito. Teve neguinho que tirou foto e tudo.Foi uma cocó mesmo. Coitada da Ritinha, eu queria ajuda-la, de algum jeito. Mas não sabia como. Eu cheguei a ver as fotos, sacanagem. Tinha uma foto que a Ritinha tava com a cara cheia de porra. Maior humilhação.
Daí, ela só vivia em casa, raramente saía. Passei o maior tempão sem encontra-la. O Fabinho também me disse que a mãe dela ia dar o bebê. Ritinha também morava só com a mãe. Parece uma praga aqui, tipo tem muita gente sem pai. O da Ritinha morreu de verdade, caiu do andaime que tava trabalhando. Morreu em construção. O irmão dela foi embora pra o Sul, casou e vive por lá, nunca dá notícias, não manda dinheiro, nada.
E sua mãe é daquelas que ninguém merece ter. Uma cachorra. E digo cachorra porque é gente ruim mesmo, nem é pelo fato de ser uma puta. Nada tenho conta as putas. É que ela não vale nada. Então a Ritinha se lascou mesmo.
Daí voltei da casa de minha avó triste, não vi a Ritinha, não consegui dizer a ela que podia contar comigo. Dessa vez meu pinto nem ficou duro nem nada. Senti muita pena dela.
Minha  professora de Ciências passou um trabalho de pesquisa. Era sobre a recomposição dos ecossistemas. Maior ‘Patricinha” a minha professora. Tipo daria pra comprar todo o enxoval do filho da Ritinha, ou pagar um aborto decente só com o dinheiro de uma bolsa que ela ia dar aula. Uma coisa meio estranha você gastar um mês de salário com uma bolsa.
Minha mãe ta cada dia mais chata. Mal humorada sempre, vive gritando comigo.Minhas espinhas pioram significativamente, meu pai não aparece e não consigo mais ver a Ritinha. Resolvi trabalhar. Foi em vão, minha mãe não deixou, mas por outro lado disse que ia começar a me dar uma mesada. Ela só queria que eu continuasse estudando, e com todo o mal humor dela, eu sabia que queria o melhor pra mim. Como a maioria das mães. Pena a da Ritinha não ser assim.
Chegou o dia de entregar o tal trabalho de ciências. Fiz a parada em uma cartolina e entreguei. Voltava pra casa quando notei uma movimentação estranha na porta de casa. Havia umas trinta pessoas em minha porta, gente chorando. Fiquei aflito, por um instante meu coração falhou. Uma senhora bem afeiçoada se aproximou de mim assim que me viu chegar. Alisou minha face e me disse que minha mãe estava morta. Foi atropelada enquanto ia pro trabalho. Demoraram um pouco pra saber que era ela, porque foi longe de casa e ninguém a conhecia no lugar do acidente. Aconteceu na hora que ela desceu do ônibus. Caiu e foi esmagada por outro carro.
Senti uma falha grande de sentidos, por um momento longo achava que não tinha braços, nem pernas, nem nada. As pessoas ali ao meu redor e eu sem enxergar ou ouvir coisa alguma.
Minha avó tava sentada no sofá, inerte. Acho que seus pensamentos também tavam misturados. Ela sabia que iria ter de cuidar de mim. O cara da mercearia foi reconhecer o corpo de minha mãe. Disse que queria pagar o seu enterro. Deixamos. Foi estranho na hora que o caixão chegou. Ele veio numa combe e, quando o cara abriu a porta e vi o caixão com minha mãe dentro voltei a não sentir meu coração. Subitamente lembrei-me de um dia, em que ela conversou comigo e disse “O filho de Margarida morreu. Não existe dor maior que a de enterrar um filho”. Margarida era a empregada oficial da vizinha da casa que minha mãe trabalhava como diarista. Pensei naquele momento na minha dor em enterrar minha mãe. “Homem nenhum presta”, ela costumava dizer isso também. “ Pronto, semana que vem começo a lhe dar uma mesada, mas nada de trabalhar”. Nunca recebi a mesada. Por que pensei nisso agora?
Retiro o que disse anteriormente. Não sinto curiosidade em ver meu pai, sinto vontade mesmo. Agora sinto uma enorme necessidade de sua presença. Queria muito que ele saísse da prisão e viesse e ver. Mas no fundo sabia que ele estava morto, só não queria acreditar.
            Depois do enterro fui pra casa de minha avó. Enquanto resolvíamos o que fazer eu ficaria por lá.  Depois de uns dias a mãe de Ritinha esteve lá. Foi dar os pêsames à minha avó, e aproveitou pra pedir açúcar. Tive muita vontade de esgana-la, mas me contive, perguntei pela sua filha. “Ta lá dormindo, só vive dormindo agora. Ai meu Deus nem me faça lembrar dessa burra!”
Realmente eu não devia ter perguntado nada.
A vida voltou à sua rotina. Voltei à escola, me mudei pra casa de minha avó, desencanei dessa  esperar o meu pai. Comecei a olhar mais pra minha avó, só me restava ela agora. E confesso que fico nervoso toda vez que ela se sente mal.
Perdi qualquer tipo de esperança com Ritinha.
Ela pariu o guri e o deu mesmo, voltou a sair, mas sempre com uma tristeza infinita nos olhos... Entrou pra igreja, nunca mais a vi de vestidinho. Nunca mais a vi sorrir.
Vendemos  algumas coisas lá de casa e minha avó resolveu me dar um computador. Também instalamos um telefone .
Tinha medo do esquecimento que tinha algumas vezes de minha mãe. Algumas vezes esquecia o seu rosto, então saía correndo e buscava uma foto dela. Ficava ali, olhando durante alguns minutos.
E eu ia crescendo a cada dia.
As espinhas começavam, finalmente, a secar.





           


Teias de aranhas.


TEIAS DE ARANHAS.


Era tarde quando acordou. O fim de semana havia sido por demais agitado, condizente com o que esperava, sem nenhuma surpresa boa ou ruim... Ficou ali, a olhar para o teto sujo, repleto de teias de aranha, que tanto queria limpar, mas nunca concretizava o desejo...  Era o tal do adiamento sem fim, cada dia mais o teto ficava sujo, e ela nunca limpava. Os fios pendurados,  sempre que queria ligar a luz, precisava tomar muito cuidado com os fios, algumas vezes vinha-lhe um choque.

Não que isso seja relevante, porém,  o cheiro de mofo que adentrava em suas narinas fazia-lhe ficar impaciente. Precisava de um banho, carecia urgentemente tirar toda aquela crosta que estava em sua pele, todo o cheiro do sexo, do cigarro, o gosto ruim na boca, limpar o cu.

Do chuveiro, saía água quente, embora fosse preciso sintoniza-lo bem, pois se deixasse que a água corresse muito, ficava fria. Então ela era obrigada a banhar-se com uma água fraca, sem muita potência, o que lhe causava uma certa raiva. Para relaxar, tentava um ato de blandície, meio em vão, acariciando  a xoxota, lavando-a delicadamente – meio que esperando por um orgasmo- com seu sabonete íntimo. Lavou os cabelos, e enquanto o creme agia, raspou as pernas.Só as pernas. Era a sua maior urgência no momento. Pegou um café, acendeu um cigarro e deitou-se com a cabeça no travesseiro alto. Tomou o café devagar, fumou o cigarro até o último trago possível, o que lhe queimou um pouco a boca, e começou a pensar no que iria vestir, em como iria começar a semana. Era sempre um dilema iniciar, na segunda-feira, todo aquele processo de responsabilidades, que nem ela mesma sabia por onde começar.

Deitada ali, em sua colcha de chenile, começou a retroceder... Agindo assim, era como se o seu final de semana, que lhe provocara tanto saudosismo, ainda não tivesse acabado... Mas acabara, acabou, já era...  Iniciada a espirradeira, levantou-se. Era alérgica a quase tudo que tinha em seu quarto, não podia ficar muito tempo ali. Tinha de sair, logo.

Ao olhar para suas roupas, se sentia particularmente feia naquela tarde, pensou em vestir algo bem prático. Quando não se sabe bem onde se quer ir, é difícil escolher o que vestir. Então, se enrolou na toalha amarela e voltou à cama, a fim de retroceder mais um pouco. Seus olhos então começaram a brilhar, olhando para as teias sentia uma felicidade grande. Começou a cingir. Queria gozar, olhou então para a “quina” da cama e sentiu um tesão indescritível, uma alegria de criança, pueril, ficou molhada. Então colocou a toalha delicadamente na parte em que iria se esfregar e começou a rebolar ali, como se estivesse entrando num membro grosso, trêmulo e duro.Aquele era o seu momento. Deu umas reboladinhas apressadas, depois parou a fim de controlar o espasmo, em seguida rebolou ainda mais, ele já estava por vir, era gostoso poder adia-lo.... O gozo da peraltice era muito gostoso, egocêntrico, competente... Queria gritar, mas não podia. Então, depois de se sentir incrivelmente anética, decidiu que era hora de vestir a roupa.

Vestiu uma calcinha  estampada, uma calça jeans e uma blusinha. Calçou uma sandália confortável, e acendeu outro cigarro. Ao deitar novamente em  sua cama, olhou mais atentamente para cima, e viu, lá estavam duas pequenas aranhas a descer pelo fio de luz.  Há quem odeie as aranhas.  Ouvia uma música, da casa vizinha, um som frenético, alto e perturbador. A música falava de uma mulher que queria sempre o mesmo cara, que sempre estaria ok pra ela .. Era um som que se repetia, como se toda a música estivesse programada para repetir sempre... repeat, repeat... Aquele barulho não a incomodava, ela sentia uma espécie de excitação estranha. Voltou a sentir vontade de se esfregar na cama. Não o fez, dessa vez não. Mas sentia uma estranha vontade de dançar aquilo...
Ficou ali ouvindo a música , ensaiou uma dança frente ao espelho, acendeu outro cigarro, fumou, acendeu outro, olhou para cima mais uma vez. As aranhas haviam sumido. Aquelas teias estavam cobrindo as telhas. Nem ela entendia o porquê daquilo tudo. Não sentia a menor vontade de limpar aquela coisa toda que estava cada dia mais presente em seu quarto. Por um instante, voltou a esquecer...
Já passava da hora de fazer algo, lembrou que precisava comer. Não que quisesse, era o simples fator fisiológico. Pegou um resto de feijão e macarrão, juntou tudo numa frigideira, estalou dois ovos e antes que as gemas endurecessem retirou-os da panela encharcada de manteiga. Ainda tinha um resto de coca sem gás, engoliu com outro cigarro. Cortou um tomate e uma cebola, colocou pimenta em tudo e sentou-se para a sua refeição. Enquanto comia pensava em sexo e aranhas.Regurgitava.Difícil engolir o que não se quer.

            Era preciso fazer algo, o enfado estava muito grande. Lembrou-se então que poderia arrumar seu quarto, numa tentativa desesperada de passar o tempo. Uma ótima alternativa era faxinar, quem sabe organizava toda aquela bagunça interna, o ócio. Lembrou que ainda tinha uma poeira, fez um charuto e ficou deitada na cama, olhando o teto sujo enquanto fumava aquele back . Viu várias aranhas brincando de escorregar, num tobogã gigante feito de fios brancos, jogou a cinza no prato que havia comido, fumou quase toda a poeira que tinha e decidiu que era a hora de arrumar tudo aquilo. Começou pelo guarda-roupa. Retirou todas as roupas, jogou-as no chão e começou então a dobra-las, uma por uma, numa paciência estranha. Tirou umas peças que não mais lhe cabiam, juntou no canto. Na parte superior do móvel, havia uma caixa azul. Repleta de papéis inúteis que ansiavam por sair dali. Ela olhou tudo, mas não teve coragem de se desfazer de nada. Os sapatos eram poucos, nem pensar em tirar algum do lugar... Muito mofo em tudo, roupas mofadas, alma mofada. As aranhas estavam a observar atentamente os passos daquela mulher, pararam a euforia no parque só para vê-la brincando de arrumar. Por um instante chegaram a se preocupar com aquele súbito momento de higiene. Queriam mesmo que ela saísse de uma vez.

            A roupa de cama estava suja, precisava trocar. Pegou um jogo de lençol estampado com florzinhas e colocou no lugar do outro, também de florzinhas. A cama velha de ferro estava agora mais limpa, mas sem o cheiro leve de sexo que continha, fruto de suas esfregadelas.
A música havia cessado. Foi fazer xixi. Voltou para o quarto, tirou a calça jeans que lhe apertava a xana e enrolou-se na toalha amarela. Hora da pausa.. Dessa vez pegou o controle remoto, abriu bem as pernas como se quisesse abarcar o mundo, e o esfregou nela, estava super molhada. E gozou muito enquanto suas aranhas a espreitavam, todas excitadas com aquele movimento frenético. Depois da euforia foi enxugar o controle. Ligou a TV, precisava de algum barulho para continuar a arrumação. O controle teimava em funcionar, então mexeu nas pilhas e tentou novamente. Deu certo.

            Não conseguia sair da cama, esticou o braço e pegou outro cigarro, cobriu-se com a toalha. Observou a TV, assistia, mas não via nada, a mente flutuava, apagou o cigarro, acendeu o resto da baga, fumou.  Sentou-se, viu que tinha outra caixinha, cinza, do lado da cama. Abriu-a. Encontrou duas caixinhas de creme dental, uma pomada que havia utilizado na cicatrização de sua tatuagem, uma caixa de agulhas de vários tamanhos, uma lixa de unha velha, algumas pilhas, um carretel de linha cor preta e uma tesoura azul, além de alguns grampos de cabelo. Lambeu um pouco do creme dental, pegou um cigarro, melou-o todo de gel e fumou de novo.
Sentiu uma vontade louca de tomar um café, ainda tinha um resto de pó no frasco, grudado. Ferveu a água, derramou dentro do pote e misturou tudo, colocou açúcar, despejou o líquido dentro de um copo e voltou pro quarto. O café não ficara muito bom, mas era o que tinha.. Resolveu se dar conta do que passava na televisão, era um filme meloso, goiaba, tipo sessão da tarde. Havia uma mulher no filme, uma empregada que se apaixonara pelo patrão, que levava ponta da mulher... Assistiu o resto do filme, final bem previsível.Por um breve momento aquele tédio passou, sentiu-se animada.
Chegava então a hora de deitar e olhar o teto. As aranhas continuavam ali... Esperando algo que ela não sabia o que era... Atônitas, olhando fixamente para baixo, como se quisessem descer dali... Várias aranhas num único movimento...
Foi daí então que uma delas iniciou um movimento para a direita... Outra para a esquerda... Estavam mais tranqüilas, ao menos naquele dia não seriam expulsas de casa, algumas estavam por dar à luz. A dona do quarto então dormira.
Agora, profundamente....

Cíntia Santos da Silva.
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