Filho de mãe.
Dia de escola é sempre uma chatice. Acordar cedo, vestir a roupa sem tomar banho, porque ninguém merece tomar banho às seis da manhã. Ahhhhh, e sair só com um copinho de leite no estômago. É lasca comer tão cedo.
Mamãe me deixa no ponto de ônibus, ela me acha muito grandinho para ir à escola sozinho. Diz-me sempre que preciso ter responsabilidades e tal.
Moramos somente eu e minha mãe. Meu pai? Bem, ela me diz que já morreu, mas desconfio que esteja bem vivo, provavelmente em alguma prisão. Mamãe se meteu em muitas encrencas por causa do sujeito. Eu sei porque minha avó me contou, minha mãe nunca fala sobre ele. Mas eu acredito mesmo que ele esteja em um presídio, e que irá vir me ver quando acabar de cumprir sua pena. Eu já vi isso acontecer em vários filmes. Filmes e novelas.
Não que eu queira vê-lo, não. É apenas uma curiosidade em saber quem engravidou minha mãe. Acho que isso é normal. Tipo, gostaria de saber por outra pessoa o que houve de fato.
Minha mãe trabalha o dia todo, todos os dias. Eu vou à escola, depois volto para casa e por lá fico, sem ter muito o que fazer, um saco. Algumas vezes vou brincar com a galera da rua. Gosto também de ficar olhando as gurias que passam de cinto pela rua. Elas usam só o cinto, nada de saias. Gosto de olhar o rabo delas. Me sinto bem o resto do dia.
É assim desde que nasci, passo a maior parte do tempo sozinho. Tenho um vídeo-game velho que a patroa de mainha me deu. Aqui em casa quase tudo foi dado, minha mãe faz faxina na casa dos outros, e como esse povo rico sempre se desfaz das coisas, acaba vindo tudo pra cá.
Já ganhamos sofá, mesinha de telefone, que mainha coloca um vasinho em cima. Até termos um telefone. Uma máquina de lavar que não funciona, fica lá no quintal entulhada, minha cama também foi dada, assim como a de minha mãe.
A nossa geladeira não. Essa foi comprada mesmo, ainda nem terminou-se de pagá-la. A prestação é cara, o que causa um certo nervosismo em minha mãe.
Eu estudo de segunda à sexta, como todo mundo. Aos sábados, normalmente vou ficar com minha avó, ela mora aqui perto. Vovó Creusa também ganhou quase tudo que tem em casa, às vezes ela me passa alguma coisa. No meu quarto tem uma mesinha de computador que ganhei dela. Está lá,como eu, esperando o computador. Eu uso a internet, tem uma lan house aqui pertinho, custa um real a hora. Sempre junto umas moedinhas para ir lá. Curto os jogos .
Mas o que eu gosto mesmo nos sábados é da possibilidade de ver a Ritinha. Ela é uma dessas garotas gostosas, pernas grossas, rabo grande, toda boa a Ritinha. E safada. Muito safada mesmo.
Outro dia a vi se esfregando com o Douglas atrás do caminhão. Senti uma raiva da porra, queria muito estar no lugar dele, ali enfiando a mão nos peitinhos dela.
A Ritinha, Rita de Cássia, é filha de Solange, que mora duas casas depois de minha avó. Eu até já pedi à minha avó pra morar com ela, mas Dona Carmem me disse em tom bem sonoro “ Teu lugar é ao lado de tua mãe!”. Bosta.
Um dia eu pego a Ritinha. Putz, quando eu apareço lá que ela não está, fico mal. Perco o dia mesmo. Ultimamente tenho ficado muito de pinto duro. Fico de pinto duro quando vejo a Ritinha, e quando não a vejo também.
Uma tarde, eu tava no meu quarto e pensei nela, fiquei excitado. Queria um buraco para enfiar meu pinto. Não tinha, dobrei o travesseiro e já era. Nossa, já estava quase gozando quando minha mãe chegou e viu aquilo tudo. Merda! Ela tinha de chegar mais cedo logo naquele dia cara! Levei a maior surra de minha vida. E ainda tive de lidar com a vergonha de olhar para ela um tempão.
Eu queria muito que minha mãe, Sônia é o nome dela, arrumasse um cara legal, tipo tivesse outro filho e talz. Acho que ela iria esquecer um pouco de mim né? E iria ser mais feliz também, seus olhos vivem tristes. Sempre. Tipo, ela reclama quando acorda, quando vai dormir, quando recebe dinheiro porque diz que ta todo comprometido, reclama também quando lhe atrasam a grana. Caralho! Ela só vive reclamando bixo!
O Josivaldo, dono da mercearia, é louco pela minha mãe. Não é porque é minha mãe não, mas cara, ela é bonita pra burro! Maior morenão. Novinha ainda, e não arruma um único namorado sequer. Minha avó me contou que ela era muito doida, fumava uma maconha lerda, dava pra quase todo mundo do bairro, inclusive pro meu pai e tal. Até que engravidou de mim. Ficou muito puta, minha avó sempre jogou duro com ela, nunca tomou conta de mim pra nada. Rolavam os bailes, as baladas e minha mãe se fudia porque tinha de ficar comigo. Aí, foi se tornando amarga com o tempo, e hoje em dia que já estou grande, ela não quer mais saber de nada.
Minha avó também se fudeu pra tomar conta dela. Minha família só se fode, cara.
Comigo vai ser diferente. Vou comer várias, não vou engravidar nenhuma, vou ter minha grana e vou curtir muito. Esse lance de filho é meio sinistro.
Domingo é uma verdadeira merda. Normalmente é minha avó quem vai lá pra casa, fica lá conversando um monte de besteiras com a filha e me alugando, como sempre. Tem dias que elas compram umas cervejinhas e tal, quer dizer quem vai comprar sou eu. É quando as vejo felizes, dão risada pra caralho, assistem aqueles programas insuportáveis de domingo. Algumas vezes minha avó até dorme com a gente. Aí, pra fechar o domingão com chave de ouro, termino meu domingo no sofá duro, o que é massa, porque já vou pra escola na segundona puto da vida e cheio de dor nas costas. Tem sábados que eu consigo dormir com minha avó, por causa da Ritinha claro. Poxa, ela tem um vestidinho lilás, desses que ficam meio soltos, mas que mostram quase tudo, e ainda por cima balançam com o vento. Ela adora usar este. Sabe que é a maior gostosa e se prevalece disso, como a maioria das mulheres gostosas.Ela acaba comigo.
Tirando a Ritinha, a outra mulher que mexe comigo é Dona Rose, ela trabalha na secretaria do colégio, é a secretária mais gostosa que já vi na vida. Também nem tchum pra mim. Essa fase que a gente nem é menino nem é homem é foda, tipo, eu nem jogo mais bola, nem pego ninguém. E ainda por cima sou cheio de espinhas, tenho umas cabulosas nas costas. Já me recomendaram óleo de cozinha, passei mais de uma hora até tirar aquele troço grudento de mim, fiz isso várias vezes e nada. Minhas espinhas são nervosas.
Tem uns guris na rua da minha vó que vivem doidões. Outro dia vi a Ritinha saindo com um deles. Ela ficava toda estranha, agitada mesmo com os caras. Percebi que tava cheirando. Foi aí que ferrou tudo. Ela começou a dar pros caras em troca da “frenética”, do pó. Tipo, ela já não tirava mais o vestido lilás do corpo. Cada um luta com as armas que tem.
Vez ou outra rolavam uns bailes funk lá na área. Minha avó nunca me deixava ir. Aí, rolou um sábado que fiz o seguinte: fui pra casa de minha vó, como sempre, e disse a ela que voltaria pra casa, como sempre. E disse à minha mãe que iria dormir lá, tudo isso pra ir ao baile. Confusão da porra! Justo nesse dia, eu tava lá no maior pancadão, quando começou a rolar treta! Os policiais chegaram, rolou o maior estresse, um carinha lá se inchou e começou a atirar, Deu o maior rebuliço. Eu me abaixei, sei que é o melhor a se fazer nesses casos. Depois de muita confusão, eu lá, ainda deitado, senti uma mão em meu ombro. Era um tira.
“E aí, guri? Fazendo o que aqui?” Fiz aquela cara de cu e respondi que tava curtindo o baile. Ele me mandou vazar. Mas antes de sair vi nitidamente um tira atirando num figura lá. Tive que conviver com isso. Durante uma semana elas não souberam de nada. Depois, óbvio, tudo veio à tona. A gente inventa as mentiras e acha que ninguém vai descobrir. Porra nenhuma, descobriram o principal: que eu fui ao baile, justamente o que elas não precisavam saber. Porque a morte do Geribas foi o assunto do mês. Azar do cacete!
Pronto. Depois dessa ficou meio lento o processo de reconquistar a confiança das negas. Elas viviam cabreiras. Nada colava, nem verdades nem mentiras. Minha mãe não queria mais que eu fosse pra casa de minha avó aos sábados. Até parece que eu só aprontaria aos sábados.
Fiquei nessa um tempinho, até que elas foram meio que esquecendo o ocorrido. Uns oito sábados depois, minha mãe me pediu para ir ficar com minha avó, que estava doente. Essa gordurada toda que ela curte deixou seu colesterol nas alturas. Aí eu fui. Tava louco de saudades da Ritinha. Mas me assustei quando a vi. Ela tava gorda, feia mesmo, inchada.
“Ta grávida, aquela putinha”, me contou o Fabinho. “Ninguém sabe quem é o pai”.Eu soube que ela tentou tirar, mas não deu certo. O remédio falhou. O Fabinho me falou que acham que ela engravidou numa noite em que saiu com uns quatro caras do morro. E tipo todos comeram ela, de tudo que foi jeito. Teve neguinho que tirou foto e tudo.Foi uma cocó mesmo. Coitada da Ritinha, eu queria ajuda-la, de algum jeito. Mas não sabia como. Eu cheguei a ver as fotos, sacanagem. Tinha uma foto que a Ritinha tava com a cara cheia de porra. Maior humilhação.
Daí, ela só vivia em casa, raramente saía. Passei o maior tempão sem encontra-la. O Fabinho também me disse que a mãe dela ia dar o bebê. Ritinha também morava só com a mãe. Parece uma praga aqui, tipo tem muita gente sem pai. O da Ritinha morreu de verdade, caiu do andaime que tava trabalhando. Morreu em construção. O irmão dela foi embora pra o Sul, casou e vive por lá, nunca dá notícias, não manda dinheiro, nada.
E sua mãe é daquelas que ninguém merece ter. Uma cachorra. E digo cachorra porque é gente ruim mesmo, nem é pelo fato de ser uma puta. Nada tenho conta as putas. É que ela não vale nada. Então a Ritinha se lascou mesmo.
Daí voltei da casa de minha avó triste, não vi a Ritinha, não consegui dizer a ela que podia contar comigo. Dessa vez meu pinto nem ficou duro nem nada. Senti muita pena dela.
Minha professora de Ciências passou um trabalho de pesquisa. Era sobre a recomposição dos ecossistemas. Maior ‘Patricinha” a minha professora. Tipo daria pra comprar todo o enxoval do filho da Ritinha, ou pagar um aborto decente só com o dinheiro de uma bolsa que ela ia dar aula. Uma coisa meio estranha você gastar um mês de salário com uma bolsa.
Minha mãe ta cada dia mais chata. Mal humorada sempre, vive gritando comigo.Minhas espinhas pioram significativamente, meu pai não aparece e não consigo mais ver a Ritinha. Resolvi trabalhar. Foi em vão, minha mãe não deixou, mas por outro lado disse que ia começar a me dar uma mesada. Ela só queria que eu continuasse estudando, e com todo o mal humor dela, eu sabia que queria o melhor pra mim. Como a maioria das mães. Pena a da Ritinha não ser assim.
Chegou o dia de entregar o tal trabalho de ciências. Fiz a parada em uma cartolina e entreguei. Voltava pra casa quando notei uma movimentação estranha na porta de casa. Havia umas trinta pessoas em minha porta, gente chorando. Fiquei aflito, por um instante meu coração falhou. Uma senhora bem afeiçoada se aproximou de mim assim que me viu chegar. Alisou minha face e me disse que minha mãe estava morta. Foi atropelada enquanto ia pro trabalho. Demoraram um pouco pra saber que era ela, porque foi longe de casa e ninguém a conhecia no lugar do acidente. Aconteceu na hora que ela desceu do ônibus. Caiu e foi esmagada por outro carro.
Senti uma falha grande de sentidos, por um momento longo achava que não tinha braços, nem pernas, nem nada. As pessoas ali ao meu redor e eu sem enxergar ou ouvir coisa alguma.
Minha avó tava sentada no sofá, inerte. Acho que seus pensamentos também tavam misturados. Ela sabia que iria ter de cuidar de mim. O cara da mercearia foi reconhecer o corpo de minha mãe. Disse que queria pagar o seu enterro. Deixamos. Foi estranho na hora que o caixão chegou. Ele veio numa combe e, quando o cara abriu a porta e vi o caixão com minha mãe dentro voltei a não sentir meu coração. Subitamente lembrei-me de um dia, em que ela conversou comigo e disse “O filho de Margarida morreu. Não existe dor maior que a de enterrar um filho”. Margarida era a empregada oficial da vizinha da casa que minha mãe trabalhava como diarista. Pensei naquele momento na minha dor em enterrar minha mãe. “Homem nenhum presta”, ela costumava dizer isso também. “ Pronto, semana que vem começo a lhe dar uma mesada, mas nada de trabalhar”. Nunca recebi a mesada. Por que pensei nisso agora?
Retiro o que disse anteriormente. Não sinto curiosidade em ver meu pai, sinto vontade mesmo. Agora sinto uma enorme necessidade de sua presença. Queria muito que ele saísse da prisão e viesse e ver. Mas no fundo sabia que ele estava morto, só não queria acreditar.
Depois do enterro fui pra casa de minha avó. Enquanto resolvíamos o que fazer eu ficaria por lá. Depois de uns dias a mãe de Ritinha esteve lá. Foi dar os pêsames à minha avó, e aproveitou pra pedir açúcar. Tive muita vontade de esgana-la, mas me contive, perguntei pela sua filha. “Ta lá dormindo, só vive dormindo agora. Ai meu Deus nem me faça lembrar dessa burra!”
Realmente eu não devia ter perguntado nada.
A vida voltou à sua rotina. Voltei à escola, me mudei pra casa de minha avó, desencanei dessa esperar o meu pai. Comecei a olhar mais pra minha avó, só me restava ela agora. E confesso que fico nervoso toda vez que ela se sente mal.
Perdi qualquer tipo de esperança com Ritinha.
Ela pariu o guri e o deu mesmo, voltou a sair, mas sempre com uma tristeza infinita nos olhos... Entrou pra igreja, nunca mais a vi de vestidinho. Nunca mais a vi sorrir.
Vendemos algumas coisas lá de casa e minha avó resolveu me dar um computador. Também instalamos um telefone .
Tinha medo do esquecimento que tinha algumas vezes de minha mãe. Algumas vezes esquecia o seu rosto, então saía correndo e buscava uma foto dela. Ficava ali, olhando durante alguns minutos.
E eu ia crescendo a cada dia.
As espinhas começavam, finalmente, a secar.
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