Entre um elevador e outro.
Era dia de eleição. Gente pra caralho nas ruas. Um trânsito infernal, de verdade. Segundo turno. As pessoas meio que mal humoradas por terem de ir votar. De novo. E ele lá, trabalhando. Trabalha em um desses prédios enormes que possuem um verdadeiro exército de funcionários. Havia sido promovido há pouco, agora tornara-se supervisor. Sentia uma sensação boa, de poder.
Só mora gente rica, riquíssima ou milionária naquele prédio. Todo rico tem empregada, empregadas, empregados... Com o desembargador não era diferente. Havia uma mocinha que trabalhava pra família, havia outra, mas como aquele era seu domingo de folga, ficara somente uma. A mais gostosinha. Ela saiu logo cedo e foi votar. O senhor seu patrão fora obviamente passar o dia fora com a digníssima esposa, em sua lancha, com mais alguns empregados. Mania que as pessoas tem de se envolver em ambiente de trabalho. As mães costumam dar conselhos, no fundo no fundo quase todo mundo sabe que é roubada, mas vira e mexe e alguém sempre quer comer alguém, que acaba dando...
Ao voltar de seu compromisso de cidadã, a jovem mocinha o cumprimentou. Sabe aquela cara que as mulheres fazem quando querem dar a buceta? Mas fingem que não querem? E acham que ninguém percebeu? Essa era a cara dela. Ele meio que notou e tal. Interfonou pro apartamento do desembargador para falar merda. Porque , na verdade, não havia porra nenhuma a ser falada. Então começaram a conversar sobre signos, horóscopos, essa maricagem toda que muita gente acredita. Ela disse-lhe que precisavam conhecer as virtudes um do outro. Ele, obviamente se empolgou. Se empolgou tanto que pegou o elevador social e foi tratar com ela a respeito de suas virtudes.
Fuderam horrores no quarto dela, é, não tiveram a petulância de trepar na enorme cama do desembargador. Seria demais para o jovem rapaz, e haveria um sério risco de brochamento, aquilo que algumas vezes acontece com os homens quando estão estressados, sob pressão ou impotentes.
Já foi um pouco demais para ele, estar ali comendo a empregada de uma pessoa tão poderosa. Mas a empregada era muito gostosinha para ser dispensada. Foi uma boa trepada, não foi a trepada, mas foi legal. Só não deu pra relaxar muito, só em conseguir gozar já foi ótimo.
Depois de encerrada a comilância, ela foi tomar um banho e ele ficou lá em sua cama, deitadinho olhando para o teto. Quartinho simples, com um ventilador branco no teto, uma TV de 20 polegadas ( já foi-se o tempo em que empregada assistia em TV de 14), guarda roupa creme com preto, combinando com a cama, da mesma cor. Muito arrumadinho mesmo o quarto, dava até gosto de fuder ali.
Depois era a vez dele tomar banho. E lá estava ele lavando suas partes íntimas quando a mulher do desembargador chegou. Desligou imediatamente o chuveiro, fechou a porta do banheiro e ficou lá com cara de cu esperando a merda acontecer e já imaginando sua carteira de trabalho manchada com uma demissão por justa causa. Deu pra ver o filme inteiro nesses poucos e catrastróficos segundos. Ficariam os dois sem emprego e desmoralizados. Começou a imaginar na fofocagem do caralho que iria ser entre as domésticas todas do prédio. E enquanto tinha todas essas visões, conseguia ouvir por alto o diálogo das duas... “ Ainda não tirou esse lixo, Solange?” - “ Não senhora mas já vou descer com ele, se preocupe não”. Depois o silêncio, não ouvia mais nada.
Foi então que a moça apareceu, pediu-lhe que se vestisse e saísse pela porta da cozinha. A patroa já estava em seu quarto, preparando-se para adentrar em sua banheira. Patrões não costumam conhecer bem as
dependências de seus empregados, não gostam de se misturar. E pra felicidade daquele rapaz, e daquela moça, o apartamento era grande por demais, para que eles se encontrassem. Ele vestiu-se, despediu-se da moça, dando-lhe ainda uma chincha do tipo “ Não abra a boca pra ninguém” e desceu, também pelo elevador social. Ela ficou ali, na cozinha sem saber o que fazer, sentindo-se um lixo tal qual àquele que tinha em suas mãos. Desceu, livrou-se do lixo e retornou ao apartamento. Foi arrumar o seu quarto, era muito organizadinha. Começou a pensar no que havia acontecido ali. Deu a porra da buceta para o supervisor do prédio, quase perdeu o emprego e ainda levou uma chincha do cara. “ Filho da puta...” pensou em voz alta.
Havia acabado o expediente do supervisor, e ele ainda precisava votar. Votou e foi encontrar-se com a galera. Estava morrendo de fome, precisava almoçar, ou de repente tomar um caldinho de camarão.
Foi contar o ocorrido. Aos poucos a galera ia chegando no barzinho da praça, e a história dele ia se repetindo. Todo mundo chapando e comentando as peripécias do supervisor e da doméstica. As reações, como já era de se esperar, foram as mais diversas possíveis. Houve quem o zoasse por ter comido uma empregada, houve quem perguntasse se ele havia usado sabonete importado, assim como também houve quem lhe desse uma lição básica de moral. Depois de estar ali, sentado, de barriga cheia de carne do sol ( não tinha caldinho de camarão nesse dia), ele começou a refletir de fato no acontecido.
Sabia que se aquilo vazasse, estaria fudido. Mas relaxou. Não havia muito o que se fazer, era esperar pra ver se a merda ia feder, ou não.
Ao total, tomaram dezessete cervejas, comeram carne de sol, pilombetas e aos poucos, a turma foi se dissipando. Uns foram embora porque a grana já tinha acabado. Ainda cogitaram a possibilidade de buscar uma animação, mas também por razões financeiras acabaram desistindo. Para abastecer a galera era preciso uma quantidade razoável de animação. É necessário esclarecer o que é uma animação?
A galera resolveu comprar mais cervejas no supermercado, ainda restavam os cartões de crédito de alguns. Compraram e foram para a casa de um brother para bebê-las. Um camarada levou um back e fez a alegria de alguns. Botaram um rock pra rolar e trataram de aproveitar bem o resto do domingo. A essa altura os ânimos já estavam alterados e todo mundo já estava falando tudo o que queria. Rolaram umas tretas básicas, mas no final deu tudo certo.
Ficaram na porta do brother todas as latinhas consumidas. Cheias de histórias para contar...
Cíntia Silva.