terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A salvação.

A salvação.

Todo sábado a galera se reunia no cemitério. Ficava perto da casa de todo mundo, e como ninguém tinha coisa melhor pra fazer, ou se tinha não fazia, ia para lá.
O Cemitério São João Batista abriga mais da metade do povo que morre em Aracaju.  Todo dia tem enterro, e sinceramente, não sei como cabe tanta gente lá ainda.  São quatro entradas, a maioria dos túmulos é de gavetas, e dá pra brincar à vontade . Mas não recomendo.

            O pessoal curtia levar uns cigarrinhos, umas garrafas de vinho e ficar lá de bobeira, esperar anoitecer e voltar pra casa todo mundo bêbado. É óbvio que os meninos queriam beijar as meninas... É óbvio que elas também queriam. Havia um casal apaixonado, o Cláudio e a Roberta, eles nunca se desgrudavam. Sempre era assim, todo mundo ia embora, ficavam só os dois lá.. Sempre...
Não tardou muito pra Roberta aparecer grávida. No início foi uma celeuma, o Cláudio ficou puto da vida e tal, mas depois as coisas foram se ajeitando. Pararam de ir ao cemitério, o filho deles muito provavelmente fora concebido lá.
Lembro nitidamente de Seu Cláudio, o pai de Cláudio dizendo” Ta vendo Sueli??? Eu disse que essa folia de cemitério não ia dar certo!! Porra, eu disse!!!” Dona Sueli detestou a idéia, porque além da merda toda, não gostava de Roberta. Na verdade, quase ninguém curtia a Roberta, ela era muito chatinha, controladora, mandava no Cláudio direitinho, mas como era a maior gostosa... Podia né?
Mulheres gostosas podem quase tudo.

            Eram dois a menos. Restaram sete.  Na verdade, a gravidez da Roberta salvou-lhes de um momento muito desagradável que estava por vir.
Continuamos lá, firmes ao longo dos sábados, era o nosso ritual, riamos, contávamos nossas façanhas da semana, bebíamos nosso vinho, fumávamos e voltávamos para casa felizes.  Ninguém pensava muito em fuder, era mais o lance dos beijinhos mesmo, agarrar as meninas, gozar a gente gozava em casa. Só o Cláudio que resolveu gozar por lá com a Roberta.

            Bem, havia um amigo nosso, o Joan, que sempre roubava uma garrafa de vinho, ou de vodca, no mercadinho de Seu Josivaldo, uma bodega clássica perto de nossas casas. Era rotina, Joan ia lá, comprava alguma besteira, quando comprava, e roubava alguma bebida na seqüência.
Obviamente isso seria descoberto algum dia. Eu bem que avisei a ele. Se conselhos fossem bons...
Seu Josivaldo já estava desconfiadíssimo, mas o Joan se achava o cara, achava que nunca ia ser descoberto.  Foi pego naquele flagra vergonhoso. Pegou a garrafa, como de costume, e foi saindo de fininho, se achando, como sempre. Quando chegou à porta, Seu Josivaldo  enfiou a mão em seus culhões e puxou a garrafa, fazendo o cara passar a maior vergonha da sua vida. Chamou o pai dele, que lhe deu uma surra ali mesmo, e disse que não o denunciaria em consideração aos pais do menino, que eram bons clientes. O pai de Joan ficou mais de uma semana sem botar a cara na rua, Joan também. Menos um.

            Agora éramos seis, como no romance da Maria José Dupré.  O Joan nunca mais foi nos encontrar no cemitério.  Ficamos com pena dele, mas nada podíamos fazer.
Vimos um túmulo que fora arrombado, que cena! Nossa como alguém tem a coragem de arrombar um túmulo, cara? Putz, aquilo fede, a gente é podre por dentro. A gaveta estava toda martelada, os ossos do defunto expostos. Aquela tarde fora especial, ficamos ali estudando o cadáver durante horas. Condenamos quem fez aquilo, mas gostamos muito da experiência, nos divertimos muito brincando com aqueles ossos, que eram de alguém que havia existido, que falou, riu, chorou. Engraçado, olhávamos aquilo, riamos, sem ao menos nos darmos conta que fatalmente estaríamos naquela situação um dia. Mania essa que a gente tem de achar que é imortal, de fazer aquela cara ridícula de peninha quando alguém morre. “ Fulano, morreu? Poxa, que pena... Como foi isso, meu Deus?”
Viva a hipocrisia humana.

            Lembro-me que nesta noite demorei muito a dormir. A imagem daqueles ossos retorcidos mexeu comigo, fiquei impressionado. Mas segurei a minha onda, não confessei a ninguém minha fraqueza. Eu já tinha agarrado a Rafaela e a Vanine, faltava pegar a Luciane. Eu não ia dar uma de sensívelzinho que ficou com peninha dos ossos do morto, ou melhor, da morta.
As meninas eram muito fáceis de se agarrar. Qualquer um de nós podia beijá-las, mas a Luciane não. Ela gostava de provocar, de instigar. Mas sempre caía fora na hora H. Pra mim, agarrá-la era uma questão de honra, e como vi que minhas táticas de menininho bonzinho não estavam adiantando, resolvi mudar de estratégia. Resolvi que seria mais insensível. Pelo menos por fora.

            Três sábados depois consegui agarrar a Luciane. Estranha essa coisa que alguns seres humanos têm. Essa estranha aptidão a gostar de ser levemente mal tratado. Você é bonzinho, legal, gentil. Não consegue porra nenhuma, mas se dá um desprezinho, pronto. Parece até que vira super herói. Depois que passei a dar umas desprezadas nela, a menina começou a me ligar, a me pedir favores...

            Luciane morava com a madrasta e o pai. Tinha um irmão mais velho que foi estudar fora, fazer mestrado. Um super cara mesmo o irmão dela.
Ela também era muito inteligente, sacava muito matemática e física, uma cabecinha brilhante. Eu era meio que fã dela, mas precisava disfarçar, porque senão seria mais um em sua mão.
           
A família dela estava para mudar de bairro, ou seja, ficaríamos sem mais um do grupo. Com ela fizemos diferente, rolou uma super despedida. Eu estava triste com a partida da Lu. Queria continuar vendo-a sempre, mas ficaria mais difícil com ela morando longe. Bem que tentou enrolar a gente com aquele papinho de “ Ah, galera! Eu continuarei vindo todos os sábados!”. Acreditamos e tudo. Ela até foi uns dois sábados, depois sumiu de vez...

Continuamos nossa rotina. Houve um sábado que rolou um cancelamento da reunião. O Roney e o Marcelo não podiam ir, aí desmarcamos, A essa altura qualquer um que faltasse já era um motivo pra se cancelar a reunião. Eles dois faltando, ficaríamos somente eu e as meninas.

Tudo bem, tudo  tranqüilo, reuniões rolando normalmente, eu voltei a dar uns pegas na Rafaela. Foi meio difícil no começo, ela ficou puta com o lance da Lu e quis me dar um castigo, mas depois acabou cedendo.
Não sei o que aconteceu nesse dia, mas transamos no cemitério depois da reunião. Sei lá, me deu uma puta vontade de comer a Rafa. Eu sabia que ela não era mais virgem, tinha um lance aí dela com o professor de história da escola. O cara estava comendo ela, segundo uma galera me disse.  Puta merda, a Rafa tem dezessete anos, eu tenho dezessete anos. De boa... Mas o professorzinho lá tem mais de trinta. Cara, esse professor é muito corajoso.

Comi a Rafa mais umas três vezes. Enjoamos um do outro. Nossas reuniões foram ficando cada vez mas esporádicas. Já nos víamos a cada quinze dias... Normal...

Estávamos lá, nós cinco, sem a Lu, na nossa última tarde de entretenimento – embora ainda não soubéssemos disso - quando vimos uma coisa super sinistra.
Havia um casal no cemitério, estavam discutindo, o cara estava dando uns bofetões na menina.  Nessa tarde não houve nenhum enterro. O cemitério estava praticamente vazio, estávamos um pouco afastados, mas víamos nitidamente as agressões do cara. Ficamos tensos, sem saber o que fazer naquela hora. Simplesmente nos calamos e ficamos ali olhando. Não sei porque, mas o cara não nos viu.  Aí ele saiu arrastando a  guria pelos cabelos e sumiram os dois naquele espaço imenso.

            Ficamos meio atordoados, Vanine começou a ficar nervosa, querendo ir embora. Como eles haviam sumido, sugeri a todos que continuássemos nosso papo. As meninas ficaram meio cabreiras, mas relaxaram depois.
Uns quarenta minutos depois vimos, de longe, o cara saindo do cemitério. Estava sozinho. Tenho certeza que todos se perguntaram pela moça, mas ninguém comentou nada. Fomos embora.

            Passou-se mais de um mês, nada de encontros, a galera estava se dispersando mesmo. Eu também já estava meio sem vontade de continuar aquilo.
Estava assistindo o jornal local, quando vi uma reportagem sobre uma garota desaparecida. Caralho! Era ela! Porra! O cara sumiu com ela no cemitério! Quem iria procurá-la ali? Pronto, fudeu. O cara matou a menina e a enterrou lá.  Não passaram nem cinco minutos e o Roney me ligou.  Todo mundo me ligou.
Ficamos desesperados, sem saber o que fazer. Tínhamos certeza que ela estava ali no cemitério, em algum buraco.
Vanine,  como sempre, só chorava, ensandecida “ Ele matou a menina! Meu Deus, e nós não fizemos nada!”
Ela tinha um pouco de razão, só que é meio complicado você se meter numa briga de casal, e além do mais, quem poderia adivinhar que o carinha ia apagar a moça?

            Foi aí que Roney deu uma sugestão inusitada: Teríamos de ir ao cemitério procurar o corpo da moça. Caso o encontrássemos, ligaríamos para a polícia, anonimamente é claro.
Fiquei muito puto, dei um verdadeiro chilique na hora, discordei, todos discordaram. Assunto encerrado. Por onde começaríamos a procurar?
Passou-se um tempo. Lá estava ela na TV de novo, como um verdadeiro fantasma, como se estivesse a implorar que fizéssemos algo. Afinal só nós sabíamos de seu falecimento. Dessa vez foi diferente, aquilo mexeu comigo. O cara está sendo o principal suspeito, mas sem corpo não há crime.
Eu podia acabar com aquilo. Eu podia.
Dormi mal aquela noite, sonhei com ela. Lembrei-me de um filme em que o cara seqüestrava uma moça, dopando-a com clorofórmio e a enterrava viva. Era com a Sandra Bullock, não sei porque fiquei com o filme na cabeça.
Acordei!

            Nem liguei pra turma, nem comuniquei aos meus pais. Avisei à polícia, contei o ocorrido. Pronto! Houve um verdadeiro rebuliço no cemitério. Durante dois dias nenhum morto entrava, nenhum morto saía. Os enterros foram cancelados. Dá pra imaginar um enterro sendo cancelado, ou desviado?
Todos os túmulos foram revistados, todos. Os defuntos devem ter se apavorado com aquilo.
Encontraram a porra do corpo. Caralho, acharam mesmo.
Saiu no jornal, fizeram autopsia, a mulher levou doze facadas e foi enterrada ainda viva.
Quatro dias depois ela voltara para o mesmo lugar.
Foi sepultada ali, às dezesseis horas. Todos fomos ao enterro.

            Quando tudo acabou, fiquei ali, olhando o túmulo dela. Colocaram uma foto sua na lápide. Que linda que ela era! Estava sorrindo.
Por um momento, a vi sorrindo para mim, como se fosse um sinal de agradecimento.
Mandei-lhe um beijo e saí. Mas volto lá todos os sábados para lhe visitar.
           







quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Voando alto.

Voando alto.


Tem gente que vive se fazendo de vítima. Perdeu pai, mãe, sobrinho e faz de tudo um grande drama. Ela não. Levava uma vida fudida, mas estava sempre ali, firme. Difícil algo derruba-la.

Fazia um enorme esforço para não perder seu bom humor de quase sempre. É claro, que algumas vezes, algo a emputecia. Isso acontece com todo mundo.
Morava com a irmã mais nova. Perto do lixão. Morar perto do lixão é foda. Tem urubu que não acaba mais, e gente, muita gente suja e sofrida catando lixo para viver. Irônico demais alguém viver do lixo dos outros, daquilo que, aparentemente não serve pra nada.
Mas atualmente, com tantas empresas trabalhando com reciclagem, a vida  desses catadores profissionais parecia ter algum sentido.
Duas mocinhas vivendo pertinho do lixão. Dureza...
A irmã de Marcela, Maiane, gostava de ficar ali em alguns horários – que ela havia decorado – olhando o pouso e a decolagem das aeronaves. Era uma boa diversão para ela, que sonhava em ser comissária.
Menina bem afeiçoada, estudiosa a Maiane. Seu grande sonho era conhecer um avião por dentro, vestir aquele uniforme de aeromoça, dizer aquelas palavras bonitinhas que elas dizem nos procedimentos de vôo.
Algumas vezes ela se maquiava, se arrumava e ficava imitando as comissárias. Via todos os filmes que tinham aviões, fazia uma idéia vaga do que era trabalhar dentro de um.
___ Senhoras e senhores passageiros, boa tarde. Sejam bem vindos! Avisamos que, por medida de segurança, é proibido fumar durante todo o vôo. Os aparelhos celulares deverão permanecer desligados e só ligados no saguão do aeroporto. Nosso tempo aproximado de vôo é de duas horas e vinte e cinco minutos. Eu sou Maiane, chefe de cabine e desejamos a todos uma excelente viagem. Obrigada!
E ficava ali, desfilando de um lado para o outro da casa. Se sentindo uma profissional de respeito, uma pessoa de respeito. Quando se é pobre, vez ou outra sair dessa realidade é como fumar um bom baseado. Deixa você bem leve.

Marcela, no auge de seus 22 anos, saía bem cedinho para trabalhar.  Aquele esquema massa de oito horas diárias, que quase sempre acabam em nove, e na seqüência encarar uma sala de aula. Repleta de gente desinteressada.
Tem pobre que quer vencer na vida, tem pobre que não. Tem pobre que acredita na educação, tem pobre que não. Marcela e Maiane acreditavam em um futuro mais legal que aquele presente infeliz que viviam.

A mais nova estudava pela manhã. Pela tarde ia sempre assistir os aviões pousando. Eram quatro pousos. Depois quatro decolagens. Era só o tempo da primeira galera descer, e da outra galera subir nos aviões. Voltava para casa e ficava esperando a irmã voltar. Fazia sempre a janta das duas, Marcela sempre chegava um pouquinho depois da novela das nove. Algumas vezes, nos finais de semana, se mandavam  pra casa de algum tio fingir que divertir-se-iam.

O motorista do ônibus que Marcela tomava todos os dias para o trabalho começou a se interessar por ela. Tudo bem que era uma moça meio desengonçada, mas via-se nitidamente, que era muito bonita. Depois de mais de um mês de paquerinhas e conversinhas moles eles começaram a namorar. Nas folgas dele, iam passear, e levavam a Maiane junto.

Em menos de um ano estavam morando juntos. Ronaldo, Marcela e Maiane. O motorista tinha um terreno, um pouco distante do lixão, mas no mesmo bairro e depois de construir a casa, levou as moças para lá.
A rotina deles era bem tranqüila, pouca coisa havia mudado. Cada um permanecia com suas atividades rotineiras e enfadantes A diferença é que agora havia um homem em casa.. Maiane gostava de Ronaldo. Tinham uma boa relação.

            Algumas vezes eles dois ficavam sozinhos em casa, Marcela trabalhava e estudava, era difícil estar em casa. O natural acabou acontecendo, Maiane e Ronaldo começavam a ficar próximos. Conversavam sobre tudo, sonhos, projetos de vida. Uma noite, ele levantou-se para fazer xixi, foi até a geladeira beber água na garrafa, quando deu de cara com sua cunhada saindo do quarto, semi nua, de camisolinha, com os bicos dos peitos totalmente à mostra.. Foi inevitável a excitação. Sentiu seu pênis latejando de tesão. Correu  para o quarto, acordou sua mulher e a comeu com fúria. Com a outra na cabeça.

            Resolveram fazer um churrasco num belo domingo, que estavam todos em casa. Ronaldo trabalhava tudo que era dia, inclusive os “santos”. Marcela cuidou de tudo, da carne, das cervejas, dos convidados. Umas dezoito pessoas compareceram à casa deles. Entre colegas de Ronaldo, das meninas e agregados.
Maior pagodão rolando, todos bem animados, cerveja que acaba, cerveja que chega... Pobre quase sempre está sem grana, mas quando se trata de cerveja. Todos se ajudam.  Algumas vezes Ronaldo se pegava olhando para Maiane. Dois de seus colegas de trabalho ficaram encantados por ela, ele nem a deixou que soubesse. Já tinha um estranho sentimento de posse pela moça.
Marcela era fraca pra bebida, ficou rapidamente alegre. E rapidamente foi dormir. Pronto, ali só acordaria para a vida no dia seguinte.
Foram todos embora, e Ronaldo e Maiane ficaram tomando o restante das cervejas. Ainda restavam algumas, talvez umas quatro. Ela estava no sofá, com as pernas cruzadas, e ele ali, bem a sua frente.

            Foi tudo muito rápido, Ronaldo foi pra cima dela, arrancou sua calcinha e a comeu praticamente à força, embora tivesse notado que a moça estava bem lubrificada. Ela tentou reagir, mas temia que se gritasse... A irmã acordaria. E a festa estaria literalmente acabada.
Foi possuída com muita força, violência mesmo. Ronaldo até a bateu, dizia em seu ouvido enquanto a comia que se falasse algo para a irmã a mataria.  “Você também é minha agora”.
Quando acabaram, ela foi direto para seu quarto, deitou-se do jeito que estava, ainda com o esperma do cunhado escorrendo pelas pernas. Escondeu a calcinha, encolheu-se e ficou ali, pensando no ocorrido.

E assim foram passando os dias. Ronaldo comia a mulher e a cunhada, diariamente. Ele até ficava um ou dois dias da semana sem comer a mulher, porém a cunhada...
Acontece que Maiane nutria por aquele homem um sentimento estranho. Ela o odiava, mas tinha ciúmes dele com sua irmã.Gostava de te-lo entre suas pernas, no fundo ela gostava muito.
Eles dois não tinham mais nenhum diálogo. Sempre que havia o momento dos dois, transavam e pronto.

            Marcela chegou eufórica do trabalho certa noite. Nem fora assistir aula, talvez nem fosse mais. Chamou os dois e deu a notícia, estava grávida. Milagrosamente não flagrara a irmã e o marido trepando em sua cama. Tinham acabado a transa do dia a pouco.
Ronaldo ficou olhando para ela, fingiu uma felicidade que não existia, porque ele não queria filhos, apesar de comer duas mulheres por dia. Maiane abraçou a irmã. Um abraço gélido, insosso, do tipo de abraço que não se dá em ninguém.

            A família precisaria se preparar para a chegada do bebê. Como o previsto, Marcela abandonou as aulas, ficava muito indisposta quando saía do trabalho. Os estudos podiam esperar, o trabalho é que não poderia ser largado de jeito nenhum. Contava muito com a irmã,para tudo.
Ronaldo passou a comer menos a cunhada. Eles costumavam transar sempre pela noite, quando Marcela estava na aula. Uma postura bem arriscada, que até então estava dando super certo.

            Maiane descobriu que também esperava um filho de Ronaldo. Contou a ele, que ficou furioso. “ Tire, se tiver esse filho eu dou um jeito nos dois!” Conseguiram o Citotec, ela inventou uma desculpa para a irmã, trabalho de escola na casa da amiga Fabíola. E foi mesmo pra lá. Tomou dois comprimidos e introduziu outros dois na vagina. Sentiu dores horrendas, mas não surtiu efeito.
Soube de uma mulher que fazia abortos com sonda. Era uma auxiliar de enfermagem aposentada, que ganhava a vida tirando os filhos dos outros na marra.
Com muito custo Ronaldo conseguiu a grana para que ela fosse lá. Ela foi, pela noite. A mulher, que mais parecia um açougueiro, introduziu uma espécie de cano fino entre suas pernas e lhe disse que não ficasse em repouso, que no máximo, em 48 horas estaria botando tudo pra fora.
Ela botou realmente muita coisa pra fora, perdeu muito sangue. Ainda precisava fazer a curetagem. Inventou outra desculpa para a irmã e foi se internar na maternidade.

            Com o passar dos dias Maiane sentia dores abdominais fortes. A mulher da sonda falou que era normal. A barriga de Marcela crescia. Teria uma menina, o nome seria Maria Helena, em homenagem à mãe delas.
Ronaldo deu uma rejeitada em Maiane de alguns dias. Antes de completar o resguardo dela, ele a procurou. Ela implorou para que não fizesse nada, pois ainda sentia dores, ainda sangrava, ele ficou ainda mais excitado. Ela urrava de dor, e ele tapava sua boca, se divertindo com aquilo tudo.

            Numa manhã de agosto nasceu Maria Helena. Maiane já esperava outro filho de Ronaldo, que já estava a providenciar outra ida ao “açougue” para ela. Tudo de novo, sonda, sangue, mais sangue, maternidade. Dessa vez ela não teve a mesma sorte. Teve uma hemorragia gigantesca. Tinha oscilações de pressão arterial, delírios, suava, o coração ora disparava, ora desacelerava bruscamente. Uma cena triste de se ver.
Mas resistiu. Voltou para casa. Dessa vez Marcela desconfiou, fez a irmã lhe confessar tudo, ou melhor quase tudo. Maiane admitiu que ficou grávida, que tirou o bebê. Só não admitiu que o pai da criança era o marido da irmã.
Marcela ficou decepcionada, passou vários dias sem falar com a irmã. Deu-lhe uma lição de moral inesquecível. “ Irresponsável, sai dando essa buceta por aí, me aparece grávida e nem tem a coragem e a decência de assumir o seu filho.”
No outro dia apanhou de Ronaldo por ter contado tudo à Marcela.

            Resolveu que era a hora de começar a pensar em sair dali. Começou a trabalhar numa clínica, como recepcionista. Entrou no curso de comissariado, que ficava no aeroporto. Estudava inglês em casa mesmo, quando lhe deixavam. Ninguém sabia do curso de comissariado, era um segredo seu. Concluiria junto com o colegial, caso contrário, perderia o diploma, já que precisava ter o certificado de segundo grau para se tornar uma comissária de bordo.

            Sempre que via o cunhado tinha ânsias de vômito. Ele ainda a comia sempre que podia. E ela deixava, sempre. Fechava os olhos e esperava que ele acabasse para poder ir se lavar. Só que agora, estava tomando pílula. Não engravidaria novamente. Sabia que morreria se isso acontecesse de novo. Da última vez o médico lhe informou que, caso ela engravidasse novamente morreria parindo ou abortando.
E ela ainda tinha muitos planos para sua vida, não podia morrer por qualquer coisa.
Acabou o curso, acabou o colegial, agora podia sair dali. O dinheiro que ganhava na clínica já daria para ir para algum lugar. Antes ela usava para pagar o curso, agora estava finalmente livre.
            Nem comunicou nada à Marcela, muito menos a Ronaldo. Sentiu mais pela sobrinha, ainda tão inocente. Ganhou o mundo.
Havia muitos aviões a sua espera.

Cíntia Silva.

           





quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Flor de lis.


Flor de lis.


Debaixo do mamoeiro ela saboreava o fruto com semente e tudo. Era uma daquelas tardes de preguiça, em que se almoça e se lesa todo o juízo.
Lambuzou-se bastante e adormeceu. Um sono profundo, sem direito a sono, nem pesadelo. Apenas apagou.

            Quando abriu os olhos, deu-se conta que já era fim de tarde. Sua barriga não estava mais tão cheia. Mas a leseira não permitia que se levantasse, ainda.
“Levanta daí Sebastiana!” – Era Dona Maria Isabel, já solicitando a presença da filha para preparar o jantar. A moça levantou. Não que o quisesse, mas era necessário.
A casa de taipa era espaçosa, quatro vãos grandes. O cheiro da comida se alastrava pela vizinhança, as meninas da casa eram muito prendadas.
Sebastiana era a mais velha de oito irmãos. O primogênito de Dona Maria sempre ia para a roça com o pai, trabalhar na plantação de milho e mandioca.

            Depois de feitas as tarefas, as meninas iam para a escola. Sebastiana já estava começando a se preocupar porque aquele seria seu último ano. Se quisesse e se seu pai, Seu Manuel, a deixasse estudar, teria que ser em Própria, cidade vizinha. Era lá que ela teria que concluir o segundo grau. Não que seu pai implicasse com os estudos das filhas. Não era isso. O que ele tinha era preocupação mesmo de deixar suas filhas saírem de perto de casa. “A estrada é muito perigosa, minha filha. Mas vamos ver, seja o que Deus quiser.”
Sebastiana dividia seu dia em etapas. Pela manhã ia lavar roupa no rio, onde aproveitava para se banhar. Depois voltava para ajudar no almoço, comia e lá ia ela comer mamão. Dormia, dormia... Levantava, ia cuidar do jantar, depois escola.
Gostava de estudar. Queria muito sair dali, como tantas outras moças da sua idade. Mas estava particularmente animada aquela tarde. Era sexta-feira, e no sábado haveria um baile.

            Os bailes em São Brás eram verdadeiros acontecimentos. Ocorriam na única discoteca da cidade, e muitos jovens iam lá se divertir. Sebastiana queria muito ir, mas sabia que teria de dar um jeito, seus pais não permitiriam que fosse.
São Brás é uma cidade que não evoluiu com o tempo. Ainda tem discotecas, que terminam sempre meia-noite, ainda tem gente que acredita que as filhas casam virgens.
Os pais de Sebastiana certamente acreditam que ela nunca transou com ninguém. Não é verdade. Ela sempre deu seus jeitinhos... Já deu pra uns quatro caras, todos de outras cidades, não podia se expor tanto. Sabia usar camisinha, sabia tomar pílula. Uma moça do interior esperta.

            No sábado, ela fez todos os seus afazeres, tomou seu banho e foi deitar. Enfim, aquela ladainha de sempre, teve que esperar que todos dormissem, para que pudesse sair pela janela. Suas irmãs, as mais velhas eram medrosas, nem ousavam fazer esse tipo de coisa. Afrontar Seu Manuel? Nem pensar. Ela teria de ir sozinha mesmo, nada de cúmplices.
Arrumou-se, pôs um vestidinho curto estampado, pegou o pacote de camisinhas, enfiou na calcinha e foi tratar de esquecer a vida por um instante.

            O baile, como sempre animadíssimo, contava com a presença das moças mais modernas, descoladas. Dona Salete, dona do estabelecimento, sempre caprichava na decoração. Antigamente eram luzes coloridas, quando se chegava via-se logo aquele monte de luzes coloridas sem piscar, na portaria. Hoje em dia, tem até fumacinha que ajuda a criar um clima gostoso.
Sebastiana entrou e começou a procurar alguém que pudesse lhe fazer uns carinhos.  A música estava bem a contento, o som pedia por sexo. Ela também.
Ela queria muito uma cerveja, mas não tinha mais um centavo, já tinha sido um sacrifício conseguir o dinheiro da entrada, roubou do pai.
Não foi difícil conseguir quem lhe pagasse umas.

            Lá pela quinta cerveja ela já via todo mundo bonito. Estava louca pra transar. Mirou no cara que lhe pagou as cervejas, queria agradecer-lhe. Lançou-lhe um olhar sugestivo, ele veio ao seu encontro e começaram a dançar intimamente. Precisavam sair dali. Foram até o carro, o cara arrastou até um matagalzinho próximo e lá transaram como dois loucos. Gastaram todas as camisinhas que tinham, era a hora de ir embora.
Ela foi para casa rindo, levemente embriagada, saciada. Entrou devagar, adormeceu logo.

            Era sempre assim, Sebastiana esperava ansiosamente por  cada baile, cada procissão, cada quermesse. E assim foi até o término do ano letivo. Com muito custo conseguiu com que seus pais lhe deixassem estudar fora. Agora tudo estava mais fácil.
Todas as noites ela pegava o ônibus cedido gentilmente pela prefeitura e ia estudar. Era gostoso estudar, mas a mocinha sabia que não seguiria qualquer carreira. Não seria médica, advogada ou dentista, não seria professora. Queria mesmo é ganhar dinheiro com o que sabia fazer de melhor: sexo.
Estava tudo decidido, a partir daquele momento, iria ganhar dinheiro com os seus talentos. O que foi muito fácil.

            Depois de algumas orgias – ela topava tudo- comprou um celular, colocou até anúncio no jornal com seu telefone a disposição de clientes. “ Morena gostosa, peitinho duro e bunda grande. Prometo levar você à loucura. Aceito homens, mulheres e casais.” Foi uma loucura mesmo, o telefone não parava de tocar. Já era a hora de sair de casa, precisava de um pretexto, um emprego talvez.
Seu anúncio foi um sucesso, era difícil encontrar garotas de programa ali. Muitos homens e casais a procuravam. Atendeu somente a uma mulher até então. Era uma mulher estranha, que lhe pagou muito bem só para ser chupada.

            Conseguiu sair de casa. Agora estava livre durante o dia e a noite para atender seus clientes. Investiu mais no visual, nem aprecia mais aquela mocinha bobinha de interior. Estava com cara de puta mesmo. Uma bela puta. Sempre atendia seus clientes com uma máscara. Ficava muito sensual, e até então todos haviam gostado.
Atendia todos os horários, uma verdadeira plantonista. Estava lucrando muito.
Algumas vezes ficava cansada, normal. Mas nunca recusava um chamado, a menos que estivesse ocupada.
Uma tarde, uma mulher lhe telefonou. Marcaram um encontro, transaram muito e depois a cliente lhe ofereceu uma proposta, aparentemente irrecusável. Tinha adorado a Sebastiana, que atendia por “Solange”, e queria que ela fosse para a capital, fazer programas de luxo.

            Faltava uma semana para ela partir quando atendeu um telefonema. Um homem estava querendo seus serviços. Ela nem estava muito a fim, mas precisava arrecadar o quanto pudesse para a viagem. Não sabia como iria ser na capital, precisava se prevenir. Marcou o encontro em seu apartamento.
Preparou-se, colocou sua máscara e ficou esperando pelo cliente.
O homem chegou. Tocou a campainha, ela perguntou a senha, ele disse “amora”.
“Entre querido!”
Ela já estava muito à vontade na cama, como sempre com sua máscara. O homem então se aproximou.
Seu sangue perdeu-se da face e do corpo quando o viu. Era Seu Manuel, seu pai, ali, esperando para transar com ela. Por um breve momento pensou. Tinha de decidir rápido. “ Não posso transar com meu pai!!!” “ Que merda!”
Também não podia contar-lhe que virara puta. Abriu uma cerveja, deu a ele. Abriu outra pra si.
E teve ali, a experiência mais traumatizante de toda a sua vida, Seu pai lhe comeu de diversas formas. Pagou, foi embora envergonhado. Não conversaram, ela não podia falar, ele reconheceria sua voz.
Ficou ali parada, com a máscara no rosto, atônita, muda, chocada. Decidiu ir até o fim, não podia retroceder. Queria sair dali, queria ir .
Dessa vez adormeceu com muito custo. Não atendeu mais ninguém aquela noite.
Pegou o primeiro ônibus para a capital. Enquanto viajava, relembrou os momentos que teve com seu pai. As suas lições, as conversas... Derramou algumas lágrimas. Sabia que jamais poderia olha-lo outra vez. Despediu-se ali dele, da família, de tudo.

            Chegou à capital duas horas depois. E tomou outra decisão importante. Jamais voltaria a usar máscaras.
Sabia bem que a vida é uma caixinha de surpresas...

Cíntia Silva.

Filho da mãe.


Filho de mãe.

Dia de escola é sempre uma chatice. Acordar cedo, vestir a roupa sem tomar banho, porque ninguém merece tomar banho às seis da manhã. Ahhhhh, e sair só com um copinho de leite no estômago. É lasca comer tão cedo.
Mamãe me deixa no ponto de ônibus, ela me acha muito grandinho para ir à escola sozinho. Diz-me sempre que preciso ter responsabilidades e tal.

Moramos somente eu e minha mãe. Meu pai? Bem, ela me diz que já morreu, mas desconfio que esteja bem vivo, provavelmente em alguma prisão. Mamãe se meteu em muitas encrencas por causa do sujeito. Eu sei porque minha avó me contou,  minha mãe nunca fala sobre ele. Mas eu acredito mesmo que ele esteja em um presídio, e que irá vir me ver quando acabar de cumprir sua pena. Eu já vi isso acontecer em vários filmes. Filmes e novelas.

Não que eu queira vê-lo, não. É apenas uma curiosidade em saber quem engravidou minha mãe. Acho que isso é normal. Tipo, gostaria de saber por outra pessoa o que houve de fato.
Minha mãe trabalha o dia todo, todos os dias. Eu vou à escola, depois volto para casa e por lá fico, sem ter muito o que fazer, um saco. Algumas vezes vou brincar com a galera da rua. Gosto também de ficar olhando as gurias que passam de cinto pela rua. Elas usam só o cinto, nada de saias. Gosto de olhar o rabo delas. Me sinto bem o resto do dia.

            É assim desde que nasci, passo a maior parte do tempo sozinho. Tenho um vídeo-game velho que a patroa de mainha me deu. Aqui em casa quase tudo foi dado, minha mãe faz faxina na casa dos outros, e como esse povo rico sempre se desfaz das coisas, acaba vindo tudo pra cá.
Já ganhamos sofá, mesinha de telefone, que mainha coloca um vasinho em cima. Até termos um telefone. Uma máquina de lavar que não funciona, fica lá no quintal entulhada, minha cama também foi dada, assim como a de minha mãe.
A nossa geladeira não. Essa foi comprada mesmo, ainda nem terminou-se de pagá-la. A prestação é cara, o que causa um certo nervosismo em minha mãe.
            Eu estudo de segunda à sexta, como todo mundo. Aos sábados, normalmente vou ficar com  minha avó, ela mora aqui perto. Vovó Creusa também ganhou quase tudo que tem em casa, às vezes ela me passa alguma coisa. No meu quarto tem uma mesinha de computador que ganhei dela. Está lá,como eu, esperando o computador. Eu uso a internet, tem uma lan house aqui pertinho, custa um real a hora. Sempre junto umas moedinhas para ir lá. Curto os jogos .
Mas o que eu gosto mesmo nos sábados é da possibilidade de ver a Ritinha. Ela é uma dessas garotas gostosas, pernas grossas, rabo grande, toda boa a Ritinha. E safada. Muito safada mesmo.
            Outro dia a vi se esfregando com o Douglas atrás do caminhão. Senti uma raiva da porra, queria muito estar no lugar dele, ali enfiando a mão nos peitinhos dela.
A Ritinha, Rita de Cássia, é filha de Solange, que mora duas casas depois de minha avó. Eu até já pedi à minha avó pra morar com ela, mas Dona Carmem me disse em tom bem sonoro “ Teu lugar é ao lado de tua mãe!”. Bosta.
Um dia eu pego a Ritinha. Putz, quando eu apareço lá que ela não está, fico mal. Perco o dia mesmo. Ultimamente tenho ficado muito de pinto duro. Fico de pinto duro quando vejo a Ritinha, e quando não a vejo também.
            Uma tarde, eu tava no meu quarto e pensei nela, fiquei excitado.  Queria um buraco para enfiar meu pinto. Não tinha, dobrei o travesseiro e já era. Nossa, já estava quase gozando quando minha mãe chegou e viu aquilo tudo. Merda! Ela tinha de chegar mais cedo logo naquele dia cara! Levei a maior surra de minha vida. E ainda tive de lidar com a vergonha de olhar para ela um tempão.
Eu queria muito que minha mãe, Sônia é o nome dela, arrumasse um cara legal, tipo tivesse outro filho e talz. Acho que ela iria esquecer um pouco de mim né? E iria ser mais feliz também, seus olhos vivem tristes. Sempre. Tipo, ela reclama quando acorda, quando vai dormir, quando recebe dinheiro porque diz que ta todo comprometido, reclama também quando lhe atrasam a grana. Caralho! Ela só vive reclamando bixo!
            O Josivaldo, dono da mercearia, é louco pela minha mãe. Não é porque é minha mãe não, mas cara, ela é bonita pra burro! Maior morenão. Novinha ainda, e não arruma um único namorado sequer. Minha avó me contou que ela era muito doida, fumava uma maconha lerda, dava pra quase todo mundo do bairro, inclusive pro meu pai e tal. Até que engravidou de mim. Ficou muito puta, minha avó sempre jogou duro com ela, nunca tomou conta de mim pra nada. Rolavam os bailes, as baladas e minha mãe se fudia porque tinha de ficar comigo. Aí, foi se tornando amarga com o tempo, e hoje em dia que já estou grande, ela não quer mais saber de nada.
Minha avó também se fudeu pra tomar conta dela. Minha família só se fode, cara.
Comigo vai ser diferente. Vou comer várias, não vou engravidar nenhuma, vou ter minha grana e vou curtir muito. Esse lance de filho é meio sinistro.
            Domingo é uma verdadeira merda. Normalmente é minha avó quem vai lá pra casa, fica lá conversando um monte de besteiras com a filha e me alugando, como sempre. Tem dias que elas compram umas cervejinhas e tal, quer dizer quem vai comprar sou eu. É quando as vejo felizes, dão risada pra caralho, assistem aqueles programas insuportáveis de domingo. Algumas vezes minha avó até dorme com a gente. Aí, pra fechar o domingão com chave de ouro, termino meu domingo no sofá duro, o que é massa, porque já vou pra escola na segundona puto da vida e cheio de dor nas costas. Tem sábados que eu consigo dormir com minha avó, por causa da Ritinha claro. Poxa, ela tem um vestidinho lilás, desses que ficam meio soltos, mas que mostram quase tudo, e ainda por cima balançam com o vento. Ela adora usar este. Sabe que é a maior gostosa e se prevalece disso, como a maioria das mulheres gostosas.Ela acaba comigo.
            Tirando a Ritinha, a outra mulher que mexe comigo é Dona Rose, ela trabalha na secretaria do colégio, é a secretária mais gostosa que já vi na vida. Também nem tchum pra mim. Essa fase que a gente nem é menino nem é homem é foda, tipo, eu nem jogo mais bola, nem pego ninguém. E ainda por cima sou cheio de espinhas, tenho umas cabulosas nas costas. Já me recomendaram óleo de cozinha, passei mais de uma hora até tirar aquele troço grudento de mim, fiz isso várias vezes e nada. Minhas espinhas são nervosas.

            Tem uns guris na rua da minha vó que vivem doidões. Outro dia vi a Ritinha saindo com um deles. Ela ficava toda estranha, agitada mesmo com os caras. Percebi que tava cheirando. Foi aí que ferrou tudo. Ela começou a dar pros caras em troca da “frenética”, do pó. Tipo, ela já não tirava mais o vestido lilás do corpo. Cada um luta com as armas que tem.
Vez ou outra rolavam uns bailes funk lá na área. Minha avó nunca me deixava ir. Aí, rolou um sábado que fiz o seguinte: fui pra casa de minha vó, como sempre, e disse a ela que voltaria pra casa, como sempre. E disse à minha mãe que iria dormir lá, tudo isso pra ir ao baile. Confusão da porra! Justo nesse dia, eu tava lá no maior pancadão, quando começou a rolar treta! Os policiais chegaram, rolou o maior estresse, um carinha lá se inchou e começou a atirar, Deu o maior rebuliço. Eu me abaixei, sei que é o melhor a se fazer nesses casos. Depois de muita confusão, eu lá, ainda deitado, senti uma mão em meu ombro. Era um tira.
“E aí, guri? Fazendo o que aqui?” Fiz aquela cara de cu e respondi que tava curtindo o baile. Ele me mandou vazar. Mas antes de sair vi nitidamente um tira atirando num figura lá. Tive que conviver com isso. Durante uma semana elas não souberam de nada. Depois, óbvio, tudo veio à tona. A gente inventa as mentiras e acha que ninguém vai descobrir. Porra nenhuma, descobriram o principal: que eu fui ao baile, justamente o que elas não precisavam saber. Porque a morte do Geribas foi o assunto do mês. Azar do cacete!
            Pronto. Depois dessa ficou meio lento o processo de reconquistar a confiança das negas. Elas viviam cabreiras. Nada colava, nem verdades nem mentiras. Minha mãe não queria mais que eu fosse pra casa de minha avó aos sábados. Até parece que eu só aprontaria aos sábados.
Fiquei nessa um tempinho, até que elas foram meio que esquecendo o ocorrido. Uns oito sábados depois, minha mãe me pediu para ir ficar com minha avó, que estava doente. Essa gordurada toda que ela curte deixou seu colesterol nas alturas. Aí eu fui. Tava louco de saudades da Ritinha. Mas me assustei quando a vi. Ela tava gorda, feia mesmo, inchada.
“Ta grávida, aquela putinha”, me contou o Fabinho. “Ninguém sabe quem é o pai”.Eu soube que ela tentou tirar, mas não deu certo. O remédio falhou. O Fabinho me falou que acham que ela engravidou numa noite em que saiu com uns quatro caras do morro. E tipo todos comeram ela, de tudo que foi jeito. Teve neguinho que tirou foto e tudo.Foi uma cocó mesmo. Coitada da Ritinha, eu queria ajuda-la, de algum jeito. Mas não sabia como. Eu cheguei a ver as fotos, sacanagem. Tinha uma foto que a Ritinha tava com a cara cheia de porra. Maior humilhação.
Daí, ela só vivia em casa, raramente saía. Passei o maior tempão sem encontra-la. O Fabinho também me disse que a mãe dela ia dar o bebê. Ritinha também morava só com a mãe. Parece uma praga aqui, tipo tem muita gente sem pai. O da Ritinha morreu de verdade, caiu do andaime que tava trabalhando. Morreu em construção. O irmão dela foi embora pra o Sul, casou e vive por lá, nunca dá notícias, não manda dinheiro, nada.
E sua mãe é daquelas que ninguém merece ter. Uma cachorra. E digo cachorra porque é gente ruim mesmo, nem é pelo fato de ser uma puta. Nada tenho conta as putas. É que ela não vale nada. Então a Ritinha se lascou mesmo.
Daí voltei da casa de minha avó triste, não vi a Ritinha, não consegui dizer a ela que podia contar comigo. Dessa vez meu pinto nem ficou duro nem nada. Senti muita pena dela.
Minha  professora de Ciências passou um trabalho de pesquisa. Era sobre a recomposição dos ecossistemas. Maior ‘Patricinha” a minha professora. Tipo daria pra comprar todo o enxoval do filho da Ritinha, ou pagar um aborto decente só com o dinheiro de uma bolsa que ela ia dar aula. Uma coisa meio estranha você gastar um mês de salário com uma bolsa.
Minha mãe ta cada dia mais chata. Mal humorada sempre, vive gritando comigo.Minhas espinhas pioram significativamente, meu pai não aparece e não consigo mais ver a Ritinha. Resolvi trabalhar. Foi em vão, minha mãe não deixou, mas por outro lado disse que ia começar a me dar uma mesada. Ela só queria que eu continuasse estudando, e com todo o mal humor dela, eu sabia que queria o melhor pra mim. Como a maioria das mães. Pena a da Ritinha não ser assim.
Chegou o dia de entregar o tal trabalho de ciências. Fiz a parada em uma cartolina e entreguei. Voltava pra casa quando notei uma movimentação estranha na porta de casa. Havia umas trinta pessoas em minha porta, gente chorando. Fiquei aflito, por um instante meu coração falhou. Uma senhora bem afeiçoada se aproximou de mim assim que me viu chegar. Alisou minha face e me disse que minha mãe estava morta. Foi atropelada enquanto ia pro trabalho. Demoraram um pouco pra saber que era ela, porque foi longe de casa e ninguém a conhecia no lugar do acidente. Aconteceu na hora que ela desceu do ônibus. Caiu e foi esmagada por outro carro.
Senti uma falha grande de sentidos, por um momento longo achava que não tinha braços, nem pernas, nem nada. As pessoas ali ao meu redor e eu sem enxergar ou ouvir coisa alguma.
Minha avó tava sentada no sofá, inerte. Acho que seus pensamentos também tavam misturados. Ela sabia que iria ter de cuidar de mim. O cara da mercearia foi reconhecer o corpo de minha mãe. Disse que queria pagar o seu enterro. Deixamos. Foi estranho na hora que o caixão chegou. Ele veio numa combe e, quando o cara abriu a porta e vi o caixão com minha mãe dentro voltei a não sentir meu coração. Subitamente lembrei-me de um dia, em que ela conversou comigo e disse “O filho de Margarida morreu. Não existe dor maior que a de enterrar um filho”. Margarida era a empregada oficial da vizinha da casa que minha mãe trabalhava como diarista. Pensei naquele momento na minha dor em enterrar minha mãe. “Homem nenhum presta”, ela costumava dizer isso também. “ Pronto, semana que vem começo a lhe dar uma mesada, mas nada de trabalhar”. Nunca recebi a mesada. Por que pensei nisso agora?
Retiro o que disse anteriormente. Não sinto curiosidade em ver meu pai, sinto vontade mesmo. Agora sinto uma enorme necessidade de sua presença. Queria muito que ele saísse da prisão e viesse e ver. Mas no fundo sabia que ele estava morto, só não queria acreditar.
            Depois do enterro fui pra casa de minha avó. Enquanto resolvíamos o que fazer eu ficaria por lá.  Depois de uns dias a mãe de Ritinha esteve lá. Foi dar os pêsames à minha avó, e aproveitou pra pedir açúcar. Tive muita vontade de esgana-la, mas me contive, perguntei pela sua filha. “Ta lá dormindo, só vive dormindo agora. Ai meu Deus nem me faça lembrar dessa burra!”
Realmente eu não devia ter perguntado nada.
A vida voltou à sua rotina. Voltei à escola, me mudei pra casa de minha avó, desencanei dessa  esperar o meu pai. Comecei a olhar mais pra minha avó, só me restava ela agora. E confesso que fico nervoso toda vez que ela se sente mal.
Perdi qualquer tipo de esperança com Ritinha.
Ela pariu o guri e o deu mesmo, voltou a sair, mas sempre com uma tristeza infinita nos olhos... Entrou pra igreja, nunca mais a vi de vestidinho. Nunca mais a vi sorrir.
Vendemos  algumas coisas lá de casa e minha avó resolveu me dar um computador. Também instalamos um telefone .
Tinha medo do esquecimento que tinha algumas vezes de minha mãe. Algumas vezes esquecia o seu rosto, então saía correndo e buscava uma foto dela. Ficava ali, olhando durante alguns minutos.
E eu ia crescendo a cada dia.
As espinhas começavam, finalmente, a secar.