A salvação.
Todo sábado a galera se reunia no cemitério. Ficava perto da casa de todo mundo, e como ninguém tinha coisa melhor pra fazer, ou se tinha não fazia, ia para lá.
O Cemitério São João Batista abriga mais da metade do povo que morre em Aracaju. Todo dia tem enterro, e sinceramente, não sei como cabe tanta gente lá ainda. São quatro entradas, a maioria dos túmulos é de gavetas, e dá pra brincar à vontade . Mas não recomendo.
O pessoal curtia levar uns cigarrinhos, umas garrafas de vinho e ficar lá de bobeira, esperar anoitecer e voltar pra casa todo mundo bêbado. É óbvio que os meninos queriam beijar as meninas... É óbvio que elas também queriam. Havia um casal apaixonado, o Cláudio e a Roberta, eles nunca se desgrudavam. Sempre era assim, todo mundo ia embora, ficavam só os dois lá.. Sempre...
Não tardou muito pra Roberta aparecer grávida. No início foi uma celeuma, o Cláudio ficou puto da vida e tal, mas depois as coisas foram se ajeitando. Pararam de ir ao cemitério, o filho deles muito provavelmente fora concebido lá.
Lembro nitidamente de Seu Cláudio, o pai de Cláudio dizendo” Ta vendo Sueli??? Eu disse que essa folia de cemitério não ia dar certo!! Porra, eu disse!!!” Dona Sueli detestou a idéia, porque além da merda toda, não gostava de Roberta. Na verdade, quase ninguém curtia a Roberta, ela era muito chatinha, controladora, mandava no Cláudio direitinho, mas como era a maior gostosa... Podia né?
Mulheres gostosas podem quase tudo.
Eram dois a menos. Restaram sete. Na verdade, a gravidez da Roberta salvou-lhes de um momento muito desagradável que estava por vir.
Continuamos lá, firmes ao longo dos sábados, era o nosso ritual, riamos, contávamos nossas façanhas da semana, bebíamos nosso vinho, fumávamos e voltávamos para casa felizes. Ninguém pensava muito em fuder, era mais o lance dos beijinhos mesmo, agarrar as meninas, gozar a gente gozava em casa. Só o Cláudio que resolveu gozar por lá com a Roberta.
Bem, havia um amigo nosso, o Joan, que sempre roubava uma garrafa de vinho, ou de vodca, no mercadinho de Seu Josivaldo, uma bodega clássica perto de nossas casas. Era rotina, Joan ia lá, comprava alguma besteira, quando comprava, e roubava alguma bebida na seqüência.
Obviamente isso seria descoberto algum dia. Eu bem que avisei a ele. Se conselhos fossem bons...
Seu Josivaldo já estava desconfiadíssimo, mas o Joan se achava o cara, achava que nunca ia ser descoberto. Foi pego naquele flagra vergonhoso. Pegou a garrafa, como de costume, e foi saindo de fininho, se achando, como sempre. Quando chegou à porta, Seu Josivaldo enfiou a mão em seus culhões e puxou a garrafa, fazendo o cara passar a maior vergonha da sua vida. Chamou o pai dele, que lhe deu uma surra ali mesmo, e disse que não o denunciaria em consideração aos pais do menino, que eram bons clientes. O pai de Joan ficou mais de uma semana sem botar a cara na rua, Joan também. Menos um.
Agora éramos seis, como no romance da Maria José Dupré. O Joan nunca mais foi nos encontrar no cemitério. Ficamos com pena dele, mas nada podíamos fazer.
Vimos um túmulo que fora arrombado, que cena! Nossa como alguém tem a coragem de arrombar um túmulo, cara? Putz, aquilo fede, a gente é podre por dentro. A gaveta estava toda martelada, os ossos do defunto expostos. Aquela tarde fora especial, ficamos ali estudando o cadáver durante horas. Condenamos quem fez aquilo, mas gostamos muito da experiência, nos divertimos muito brincando com aqueles ossos, que eram de alguém que havia existido, que falou, riu, chorou. Engraçado, olhávamos aquilo, riamos, sem ao menos nos darmos conta que fatalmente estaríamos naquela situação um dia. Mania essa que a gente tem de achar que é imortal, de fazer aquela cara ridícula de peninha quando alguém morre. “ Fulano, morreu? Poxa, que pena... Como foi isso, meu Deus?”
Viva a hipocrisia humana.
Lembro-me que nesta noite demorei muito a dormir. A imagem daqueles ossos retorcidos mexeu comigo, fiquei impressionado. Mas segurei a minha onda, não confessei a ninguém minha fraqueza. Eu já tinha agarrado a Rafaela e a Vanine, faltava pegar a Luciane. Eu não ia dar uma de sensívelzinho que ficou com peninha dos ossos do morto, ou melhor, da morta.
As meninas eram muito fáceis de se agarrar. Qualquer um de nós podia beijá-las, mas a Luciane não. Ela gostava de provocar, de instigar. Mas sempre caía fora na hora H. Pra mim, agarrá-la era uma questão de honra, e como vi que minhas táticas de menininho bonzinho não estavam adiantando, resolvi mudar de estratégia. Resolvi que seria mais insensível. Pelo menos por fora.
Três sábados depois consegui agarrar a Luciane. Estranha essa coisa que alguns seres humanos têm. Essa estranha aptidão a gostar de ser levemente mal tratado. Você é bonzinho, legal, gentil. Não consegue porra nenhuma, mas se dá um desprezinho, pronto. Parece até que vira super herói. Depois que passei a dar umas desprezadas nela, a menina começou a me ligar, a me pedir favores...
Luciane morava com a madrasta e o pai. Tinha um irmão mais velho que foi estudar fora, fazer mestrado. Um super cara mesmo o irmão dela.
Ela também era muito inteligente, sacava muito matemática e física, uma cabecinha brilhante. Eu era meio que fã dela, mas precisava disfarçar, porque senão seria mais um em sua mão.
A família dela estava para mudar de bairro, ou seja, ficaríamos sem mais um do grupo. Com ela fizemos diferente, rolou uma super despedida. Eu estava triste com a partida da Lu. Queria continuar vendo-a sempre, mas ficaria mais difícil com ela morando longe. Bem que tentou enrolar a gente com aquele papinho de “ Ah, galera! Eu continuarei vindo todos os sábados!”. Acreditamos e tudo. Ela até foi uns dois sábados, depois sumiu de vez...
Continuamos nossa rotina. Houve um sábado que rolou um cancelamento da reunião. O Roney e o Marcelo não podiam ir, aí desmarcamos, A essa altura qualquer um que faltasse já era um motivo pra se cancelar a reunião. Eles dois faltando, ficaríamos somente eu e as meninas.
Tudo bem, tudo tranqüilo, reuniões rolando normalmente, eu voltei a dar uns pegas na Rafaela. Foi meio difícil no começo, ela ficou puta com o lance da Lu e quis me dar um castigo, mas depois acabou cedendo.
Não sei o que aconteceu nesse dia, mas transamos no cemitério depois da reunião. Sei lá, me deu uma puta vontade de comer a Rafa. Eu sabia que ela não era mais virgem, tinha um lance aí dela com o professor de história da escola. O cara estava comendo ela, segundo uma galera me disse. Puta merda, a Rafa tem dezessete anos, eu tenho dezessete anos. De boa... Mas o professorzinho lá tem mais de trinta. Cara, esse professor é muito corajoso.
Comi a Rafa mais umas três vezes. Enjoamos um do outro. Nossas reuniões foram ficando cada vez mas esporádicas. Já nos víamos a cada quinze dias... Normal...
Estávamos lá, nós cinco, sem a Lu, na nossa última tarde de entretenimento – embora ainda não soubéssemos disso - quando vimos uma coisa super sinistra.
Havia um casal no cemitério, estavam discutindo, o cara estava dando uns bofetões na menina. Nessa tarde não houve nenhum enterro. O cemitério estava praticamente vazio, estávamos um pouco afastados, mas víamos nitidamente as agressões do cara. Ficamos tensos, sem saber o que fazer naquela hora. Simplesmente nos calamos e ficamos ali olhando. Não sei porque, mas o cara não nos viu. Aí ele saiu arrastando a guria pelos cabelos e sumiram os dois naquele espaço imenso.
Ficamos meio atordoados, Vanine começou a ficar nervosa, querendo ir embora. Como eles haviam sumido, sugeri a todos que continuássemos nosso papo. As meninas ficaram meio cabreiras, mas relaxaram depois.
Uns quarenta minutos depois vimos, de longe, o cara saindo do cemitério. Estava sozinho. Tenho certeza que todos se perguntaram pela moça, mas ninguém comentou nada. Fomos embora.
Passou-se mais de um mês, nada de encontros, a galera estava se dispersando mesmo. Eu também já estava meio sem vontade de continuar aquilo.
Estava assistindo o jornal local, quando vi uma reportagem sobre uma garota desaparecida. Caralho! Era ela! Porra! O cara sumiu com ela no cemitério! Quem iria procurá-la ali? Pronto, fudeu. O cara matou a menina e a enterrou lá. Não passaram nem cinco minutos e o Roney me ligou. Todo mundo me ligou.
Ficamos desesperados, sem saber o que fazer. Tínhamos certeza que ela estava ali no cemitério, em algum buraco.
Vanine, como sempre, só chorava, ensandecida “ Ele matou a menina! Meu Deus, e nós não fizemos nada!”
Ela tinha um pouco de razão, só que é meio complicado você se meter numa briga de casal, e além do mais, quem poderia adivinhar que o carinha ia apagar a moça?
Foi aí que Roney deu uma sugestão inusitada: Teríamos de ir ao cemitério procurar o corpo da moça. Caso o encontrássemos, ligaríamos para a polícia, anonimamente é claro.
Fiquei muito puto, dei um verdadeiro chilique na hora, discordei, todos discordaram. Assunto encerrado. Por onde começaríamos a procurar?
Passou-se um tempo. Lá estava ela na TV de novo, como um verdadeiro fantasma, como se estivesse a implorar que fizéssemos algo. Afinal só nós sabíamos de seu falecimento. Dessa vez foi diferente, aquilo mexeu comigo. O cara está sendo o principal suspeito, mas sem corpo não há crime.
Eu podia acabar com aquilo. Eu podia.
Dormi mal aquela noite, sonhei com ela. Lembrei-me de um filme em que o cara seqüestrava uma moça, dopando-a com clorofórmio e a enterrava viva. Era com a Sandra Bullock, não sei porque fiquei com o filme na cabeça.
Acordei!
Nem liguei pra turma, nem comuniquei aos meus pais. Avisei à polícia, contei o ocorrido. Pronto! Houve um verdadeiro rebuliço no cemitério. Durante dois dias nenhum morto entrava, nenhum morto saía. Os enterros foram cancelados. Dá pra imaginar um enterro sendo cancelado, ou desviado?
Todos os túmulos foram revistados, todos. Os defuntos devem ter se apavorado com aquilo.
Encontraram a porra do corpo. Caralho, acharam mesmo.
Saiu no jornal, fizeram autopsia, a mulher levou doze facadas e foi enterrada ainda viva.
Quatro dias depois ela voltara para o mesmo lugar.
Foi sepultada ali, às dezesseis horas. Todos fomos ao enterro.
Quando tudo acabou, fiquei ali, olhando o túmulo dela. Colocaram uma foto sua na lápide. Que linda que ela era! Estava sorrindo.
Por um momento, a vi sorrindo para mim, como se fosse um sinal de agradecimento.
Mandei-lhe um beijo e saí. Mas volto lá todos os sábados para lhe visitar.
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