quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Voando alto.

Voando alto.


Tem gente que vive se fazendo de vítima. Perdeu pai, mãe, sobrinho e faz de tudo um grande drama. Ela não. Levava uma vida fudida, mas estava sempre ali, firme. Difícil algo derruba-la.

Fazia um enorme esforço para não perder seu bom humor de quase sempre. É claro, que algumas vezes, algo a emputecia. Isso acontece com todo mundo.
Morava com a irmã mais nova. Perto do lixão. Morar perto do lixão é foda. Tem urubu que não acaba mais, e gente, muita gente suja e sofrida catando lixo para viver. Irônico demais alguém viver do lixo dos outros, daquilo que, aparentemente não serve pra nada.
Mas atualmente, com tantas empresas trabalhando com reciclagem, a vida  desses catadores profissionais parecia ter algum sentido.
Duas mocinhas vivendo pertinho do lixão. Dureza...
A irmã de Marcela, Maiane, gostava de ficar ali em alguns horários – que ela havia decorado – olhando o pouso e a decolagem das aeronaves. Era uma boa diversão para ela, que sonhava em ser comissária.
Menina bem afeiçoada, estudiosa a Maiane. Seu grande sonho era conhecer um avião por dentro, vestir aquele uniforme de aeromoça, dizer aquelas palavras bonitinhas que elas dizem nos procedimentos de vôo.
Algumas vezes ela se maquiava, se arrumava e ficava imitando as comissárias. Via todos os filmes que tinham aviões, fazia uma idéia vaga do que era trabalhar dentro de um.
___ Senhoras e senhores passageiros, boa tarde. Sejam bem vindos! Avisamos que, por medida de segurança, é proibido fumar durante todo o vôo. Os aparelhos celulares deverão permanecer desligados e só ligados no saguão do aeroporto. Nosso tempo aproximado de vôo é de duas horas e vinte e cinco minutos. Eu sou Maiane, chefe de cabine e desejamos a todos uma excelente viagem. Obrigada!
E ficava ali, desfilando de um lado para o outro da casa. Se sentindo uma profissional de respeito, uma pessoa de respeito. Quando se é pobre, vez ou outra sair dessa realidade é como fumar um bom baseado. Deixa você bem leve.

Marcela, no auge de seus 22 anos, saía bem cedinho para trabalhar.  Aquele esquema massa de oito horas diárias, que quase sempre acabam em nove, e na seqüência encarar uma sala de aula. Repleta de gente desinteressada.
Tem pobre que quer vencer na vida, tem pobre que não. Tem pobre que acredita na educação, tem pobre que não. Marcela e Maiane acreditavam em um futuro mais legal que aquele presente infeliz que viviam.

A mais nova estudava pela manhã. Pela tarde ia sempre assistir os aviões pousando. Eram quatro pousos. Depois quatro decolagens. Era só o tempo da primeira galera descer, e da outra galera subir nos aviões. Voltava para casa e ficava esperando a irmã voltar. Fazia sempre a janta das duas, Marcela sempre chegava um pouquinho depois da novela das nove. Algumas vezes, nos finais de semana, se mandavam  pra casa de algum tio fingir que divertir-se-iam.

O motorista do ônibus que Marcela tomava todos os dias para o trabalho começou a se interessar por ela. Tudo bem que era uma moça meio desengonçada, mas via-se nitidamente, que era muito bonita. Depois de mais de um mês de paquerinhas e conversinhas moles eles começaram a namorar. Nas folgas dele, iam passear, e levavam a Maiane junto.

Em menos de um ano estavam morando juntos. Ronaldo, Marcela e Maiane. O motorista tinha um terreno, um pouco distante do lixão, mas no mesmo bairro e depois de construir a casa, levou as moças para lá.
A rotina deles era bem tranqüila, pouca coisa havia mudado. Cada um permanecia com suas atividades rotineiras e enfadantes A diferença é que agora havia um homem em casa.. Maiane gostava de Ronaldo. Tinham uma boa relação.

            Algumas vezes eles dois ficavam sozinhos em casa, Marcela trabalhava e estudava, era difícil estar em casa. O natural acabou acontecendo, Maiane e Ronaldo começavam a ficar próximos. Conversavam sobre tudo, sonhos, projetos de vida. Uma noite, ele levantou-se para fazer xixi, foi até a geladeira beber água na garrafa, quando deu de cara com sua cunhada saindo do quarto, semi nua, de camisolinha, com os bicos dos peitos totalmente à mostra.. Foi inevitável a excitação. Sentiu seu pênis latejando de tesão. Correu  para o quarto, acordou sua mulher e a comeu com fúria. Com a outra na cabeça.

            Resolveram fazer um churrasco num belo domingo, que estavam todos em casa. Ronaldo trabalhava tudo que era dia, inclusive os “santos”. Marcela cuidou de tudo, da carne, das cervejas, dos convidados. Umas dezoito pessoas compareceram à casa deles. Entre colegas de Ronaldo, das meninas e agregados.
Maior pagodão rolando, todos bem animados, cerveja que acaba, cerveja que chega... Pobre quase sempre está sem grana, mas quando se trata de cerveja. Todos se ajudam.  Algumas vezes Ronaldo se pegava olhando para Maiane. Dois de seus colegas de trabalho ficaram encantados por ela, ele nem a deixou que soubesse. Já tinha um estranho sentimento de posse pela moça.
Marcela era fraca pra bebida, ficou rapidamente alegre. E rapidamente foi dormir. Pronto, ali só acordaria para a vida no dia seguinte.
Foram todos embora, e Ronaldo e Maiane ficaram tomando o restante das cervejas. Ainda restavam algumas, talvez umas quatro. Ela estava no sofá, com as pernas cruzadas, e ele ali, bem a sua frente.

            Foi tudo muito rápido, Ronaldo foi pra cima dela, arrancou sua calcinha e a comeu praticamente à força, embora tivesse notado que a moça estava bem lubrificada. Ela tentou reagir, mas temia que se gritasse... A irmã acordaria. E a festa estaria literalmente acabada.
Foi possuída com muita força, violência mesmo. Ronaldo até a bateu, dizia em seu ouvido enquanto a comia que se falasse algo para a irmã a mataria.  “Você também é minha agora”.
Quando acabaram, ela foi direto para seu quarto, deitou-se do jeito que estava, ainda com o esperma do cunhado escorrendo pelas pernas. Escondeu a calcinha, encolheu-se e ficou ali, pensando no ocorrido.

E assim foram passando os dias. Ronaldo comia a mulher e a cunhada, diariamente. Ele até ficava um ou dois dias da semana sem comer a mulher, porém a cunhada...
Acontece que Maiane nutria por aquele homem um sentimento estranho. Ela o odiava, mas tinha ciúmes dele com sua irmã.Gostava de te-lo entre suas pernas, no fundo ela gostava muito.
Eles dois não tinham mais nenhum diálogo. Sempre que havia o momento dos dois, transavam e pronto.

            Marcela chegou eufórica do trabalho certa noite. Nem fora assistir aula, talvez nem fosse mais. Chamou os dois e deu a notícia, estava grávida. Milagrosamente não flagrara a irmã e o marido trepando em sua cama. Tinham acabado a transa do dia a pouco.
Ronaldo ficou olhando para ela, fingiu uma felicidade que não existia, porque ele não queria filhos, apesar de comer duas mulheres por dia. Maiane abraçou a irmã. Um abraço gélido, insosso, do tipo de abraço que não se dá em ninguém.

            A família precisaria se preparar para a chegada do bebê. Como o previsto, Marcela abandonou as aulas, ficava muito indisposta quando saía do trabalho. Os estudos podiam esperar, o trabalho é que não poderia ser largado de jeito nenhum. Contava muito com a irmã,para tudo.
Ronaldo passou a comer menos a cunhada. Eles costumavam transar sempre pela noite, quando Marcela estava na aula. Uma postura bem arriscada, que até então estava dando super certo.

            Maiane descobriu que também esperava um filho de Ronaldo. Contou a ele, que ficou furioso. “ Tire, se tiver esse filho eu dou um jeito nos dois!” Conseguiram o Citotec, ela inventou uma desculpa para a irmã, trabalho de escola na casa da amiga Fabíola. E foi mesmo pra lá. Tomou dois comprimidos e introduziu outros dois na vagina. Sentiu dores horrendas, mas não surtiu efeito.
Soube de uma mulher que fazia abortos com sonda. Era uma auxiliar de enfermagem aposentada, que ganhava a vida tirando os filhos dos outros na marra.
Com muito custo Ronaldo conseguiu a grana para que ela fosse lá. Ela foi, pela noite. A mulher, que mais parecia um açougueiro, introduziu uma espécie de cano fino entre suas pernas e lhe disse que não ficasse em repouso, que no máximo, em 48 horas estaria botando tudo pra fora.
Ela botou realmente muita coisa pra fora, perdeu muito sangue. Ainda precisava fazer a curetagem. Inventou outra desculpa para a irmã e foi se internar na maternidade.

            Com o passar dos dias Maiane sentia dores abdominais fortes. A mulher da sonda falou que era normal. A barriga de Marcela crescia. Teria uma menina, o nome seria Maria Helena, em homenagem à mãe delas.
Ronaldo deu uma rejeitada em Maiane de alguns dias. Antes de completar o resguardo dela, ele a procurou. Ela implorou para que não fizesse nada, pois ainda sentia dores, ainda sangrava, ele ficou ainda mais excitado. Ela urrava de dor, e ele tapava sua boca, se divertindo com aquilo tudo.

            Numa manhã de agosto nasceu Maria Helena. Maiane já esperava outro filho de Ronaldo, que já estava a providenciar outra ida ao “açougue” para ela. Tudo de novo, sonda, sangue, mais sangue, maternidade. Dessa vez ela não teve a mesma sorte. Teve uma hemorragia gigantesca. Tinha oscilações de pressão arterial, delírios, suava, o coração ora disparava, ora desacelerava bruscamente. Uma cena triste de se ver.
Mas resistiu. Voltou para casa. Dessa vez Marcela desconfiou, fez a irmã lhe confessar tudo, ou melhor quase tudo. Maiane admitiu que ficou grávida, que tirou o bebê. Só não admitiu que o pai da criança era o marido da irmã.
Marcela ficou decepcionada, passou vários dias sem falar com a irmã. Deu-lhe uma lição de moral inesquecível. “ Irresponsável, sai dando essa buceta por aí, me aparece grávida e nem tem a coragem e a decência de assumir o seu filho.”
No outro dia apanhou de Ronaldo por ter contado tudo à Marcela.

            Resolveu que era a hora de começar a pensar em sair dali. Começou a trabalhar numa clínica, como recepcionista. Entrou no curso de comissariado, que ficava no aeroporto. Estudava inglês em casa mesmo, quando lhe deixavam. Ninguém sabia do curso de comissariado, era um segredo seu. Concluiria junto com o colegial, caso contrário, perderia o diploma, já que precisava ter o certificado de segundo grau para se tornar uma comissária de bordo.

            Sempre que via o cunhado tinha ânsias de vômito. Ele ainda a comia sempre que podia. E ela deixava, sempre. Fechava os olhos e esperava que ele acabasse para poder ir se lavar. Só que agora, estava tomando pílula. Não engravidaria novamente. Sabia que morreria se isso acontecesse de novo. Da última vez o médico lhe informou que, caso ela engravidasse novamente morreria parindo ou abortando.
E ela ainda tinha muitos planos para sua vida, não podia morrer por qualquer coisa.
Acabou o curso, acabou o colegial, agora podia sair dali. O dinheiro que ganhava na clínica já daria para ir para algum lugar. Antes ela usava para pagar o curso, agora estava finalmente livre.
            Nem comunicou nada à Marcela, muito menos a Ronaldo. Sentiu mais pela sobrinha, ainda tão inocente. Ganhou o mundo.
Havia muitos aviões a sua espera.

Cíntia Silva.

           





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