sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Entre um elevador e outro.


Entre um elevador e outro.


            Era dia de eleição. Gente pra caralho nas ruas. Um trânsito infernal, de verdade. Segundo turno. As pessoas meio que mal humoradas por terem de ir votar. De novo. E ele lá, trabalhando. Trabalha em um desses prédios enormes que possuem um verdadeiro exército de funcionários. Havia sido promovido há pouco, agora tornara-se supervisor. Sentia uma sensação boa, de poder.
            Só mora gente rica, riquíssima ou milionária naquele prédio. Todo rico tem empregada, empregadas, empregados... Com o desembargador não era diferente. Havia uma mocinha que trabalhava pra família, havia outra, mas como aquele era seu domingo de folga, ficara somente uma. A mais gostosinha. Ela saiu logo cedo e foi votar. O senhor seu patrão fora obviamente passar o dia fora com a digníssima esposa, em sua lancha, com mais alguns empregados. Mania que as pessoas tem de se envolver em ambiente de trabalho. As mães costumam dar conselhos, no fundo no fundo quase todo mundo sabe que é roubada, mas vira e mexe e alguém sempre quer comer alguém, que acaba dando...
            Ao voltar de seu compromisso de cidadã, a jovem mocinha o cumprimentou. Sabe aquela cara que as mulheres fazem quando querem dar a buceta? Mas fingem que não querem? E acham que ninguém percebeu? Essa era a cara dela. Ele meio que notou e tal. Interfonou pro apartamento do desembargador para falar merda. Porque , na verdade, não havia porra nenhuma a ser falada. Então começaram a conversar sobre signos, horóscopos, essa maricagem toda que muita gente acredita. Ela disse-lhe que precisavam conhecer as virtudes um do outro. Ele, obviamente se empolgou. Se empolgou tanto que pegou o elevador social e foi tratar com ela a respeito de suas virtudes.
            Fuderam horrores no quarto dela, é, não tiveram a petulância de trepar na enorme cama do desembargador. Seria demais para o jovem rapaz, e haveria um sério risco de brochamento, aquilo que algumas vezes acontece com os homens quando estão estressados, sob pressão ou impotentes.

Já foi um pouco demais para ele, estar ali comendo a empregada de uma pessoa tão poderosa. Mas a empregada era muito gostosinha para ser dispensada. Foi uma boa trepada, não foi a trepada, mas foi legal. Só não deu pra relaxar muito, só em conseguir gozar já foi ótimo.

            Depois de encerrada a comilância, ela foi tomar um banho e ele ficou lá em sua cama, deitadinho olhando para o teto. Quartinho simples, com um ventilador branco no teto, uma TV de 20 polegadas ( já foi-se  o tempo em que empregada assistia em TV de 14), guarda roupa creme com preto, combinando com a cama, da mesma cor. Muito arrumadinho mesmo o quarto, dava até gosto de fuder ali.
            Depois era a vez dele tomar banho. E lá estava ele lavando suas partes íntimas quando a mulher do desembargador chegou. Desligou imediatamente o chuveiro, fechou a porta do banheiro e ficou lá com cara de cu esperando a merda acontecer e já imaginando sua carteira de trabalho manchada com uma demissão por justa causa. Deu pra ver o filme inteiro nesses poucos e catrastróficos segundos. Ficariam os dois sem emprego e desmoralizados. Começou a imaginar na fofocagem do caralho que iria ser entre as domésticas todas do prédio. E enquanto tinha todas essas visões, conseguia ouvir por alto o diálogo das duas... “ Ainda não tirou esse lixo, Solange?”  - “ Não senhora mas já vou descer  com ele, se preocupe não”. Depois o silêncio, não ouvia mais nada.
            Foi então que a moça apareceu, pediu-lhe que se vestisse e saísse pela porta da cozinha. A patroa já estava em seu quarto, preparando-se para adentrar em sua banheira. Patrões não costumam conhecer bem as

dependências de seus empregados, não gostam de se misturar. E pra felicidade daquele rapaz, e daquela moça, o apartamento era grande por demais, para que eles se encontrassem. Ele vestiu-se, despediu-se da moça, dando-lhe ainda uma chincha do tipo “ Não abra a boca pra ninguém” e desceu, também pelo elevador social. Ela ficou ali, na cozinha sem saber o que fazer, sentindo-se um lixo tal qual àquele que tinha em suas mãos. Desceu, livrou-se do lixo e retornou ao apartamento. Foi arrumar o seu quarto, era muito organizadinha. Começou a pensar no que havia acontecido ali. Deu a porra da buceta para o supervisor do prédio, quase perdeu o emprego e ainda levou uma chincha do cara. “ Filho da puta...” pensou em voz alta.
           
            Havia acabado o expediente do supervisor, e ele ainda precisava votar. Votou e foi encontrar-se com a galera. Estava morrendo de fome, precisava almoçar, ou de repente tomar um caldinho de camarão.
Foi contar o ocorrido. Aos poucos a galera ia chegando no barzinho da praça, e a história dele ia se repetindo. Todo mundo chapando e comentando as peripécias do supervisor e da doméstica. As reações, como já era de se esperar, foram as mais diversas possíveis. Houve quem o zoasse por ter comido uma empregada, houve quem perguntasse se ele havia usado sabonete importado, assim como também houve quem lhe desse uma lição básica de moral. Depois de estar ali, sentado, de barriga cheia de carne do sol ( não tinha caldinho de camarão nesse dia), ele começou a refletir de fato no acontecido.
Sabia que se aquilo vazasse, estaria fudido. Mas relaxou. Não havia muito o que se fazer, era esperar pra ver se a merda ia feder, ou não.
            Ao total, tomaram dezessete cervejas, comeram carne de sol, pilombetas e aos poucos, a turma foi se dissipando. Uns foram embora porque a grana já tinha acabado. Ainda cogitaram a possibilidade de buscar uma animação, mas também por razões financeiras acabaram desistindo. Para abastecer a galera era preciso uma quantidade razoável de animação. É necessário esclarecer o que é uma animação?

            A galera resolveu comprar mais cervejas no supermercado, ainda restavam os cartões de crédito de alguns. Compraram e foram para a casa de um brother para bebê-las. Um camarada levou um back e fez a alegria de alguns. Botaram um rock pra rolar e trataram de aproveitar bem o resto do domingo. A essa altura os ânimos já estavam alterados e todo mundo já estava falando tudo o que queria. Rolaram umas tretas básicas, mas no final deu tudo certo.
Ficaram na porta do brother todas as latinhas consumidas. Cheias de histórias para contar...
 

Cíntia Silva.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A salvação.

A salvação.

Todo sábado a galera se reunia no cemitério. Ficava perto da casa de todo mundo, e como ninguém tinha coisa melhor pra fazer, ou se tinha não fazia, ia para lá.
O Cemitério São João Batista abriga mais da metade do povo que morre em Aracaju.  Todo dia tem enterro, e sinceramente, não sei como cabe tanta gente lá ainda.  São quatro entradas, a maioria dos túmulos é de gavetas, e dá pra brincar à vontade . Mas não recomendo.

            O pessoal curtia levar uns cigarrinhos, umas garrafas de vinho e ficar lá de bobeira, esperar anoitecer e voltar pra casa todo mundo bêbado. É óbvio que os meninos queriam beijar as meninas... É óbvio que elas também queriam. Havia um casal apaixonado, o Cláudio e a Roberta, eles nunca se desgrudavam. Sempre era assim, todo mundo ia embora, ficavam só os dois lá.. Sempre...
Não tardou muito pra Roberta aparecer grávida. No início foi uma celeuma, o Cláudio ficou puto da vida e tal, mas depois as coisas foram se ajeitando. Pararam de ir ao cemitério, o filho deles muito provavelmente fora concebido lá.
Lembro nitidamente de Seu Cláudio, o pai de Cláudio dizendo” Ta vendo Sueli??? Eu disse que essa folia de cemitério não ia dar certo!! Porra, eu disse!!!” Dona Sueli detestou a idéia, porque além da merda toda, não gostava de Roberta. Na verdade, quase ninguém curtia a Roberta, ela era muito chatinha, controladora, mandava no Cláudio direitinho, mas como era a maior gostosa... Podia né?
Mulheres gostosas podem quase tudo.

            Eram dois a menos. Restaram sete.  Na verdade, a gravidez da Roberta salvou-lhes de um momento muito desagradável que estava por vir.
Continuamos lá, firmes ao longo dos sábados, era o nosso ritual, riamos, contávamos nossas façanhas da semana, bebíamos nosso vinho, fumávamos e voltávamos para casa felizes.  Ninguém pensava muito em fuder, era mais o lance dos beijinhos mesmo, agarrar as meninas, gozar a gente gozava em casa. Só o Cláudio que resolveu gozar por lá com a Roberta.

            Bem, havia um amigo nosso, o Joan, que sempre roubava uma garrafa de vinho, ou de vodca, no mercadinho de Seu Josivaldo, uma bodega clássica perto de nossas casas. Era rotina, Joan ia lá, comprava alguma besteira, quando comprava, e roubava alguma bebida na seqüência.
Obviamente isso seria descoberto algum dia. Eu bem que avisei a ele. Se conselhos fossem bons...
Seu Josivaldo já estava desconfiadíssimo, mas o Joan se achava o cara, achava que nunca ia ser descoberto.  Foi pego naquele flagra vergonhoso. Pegou a garrafa, como de costume, e foi saindo de fininho, se achando, como sempre. Quando chegou à porta, Seu Josivaldo  enfiou a mão em seus culhões e puxou a garrafa, fazendo o cara passar a maior vergonha da sua vida. Chamou o pai dele, que lhe deu uma surra ali mesmo, e disse que não o denunciaria em consideração aos pais do menino, que eram bons clientes. O pai de Joan ficou mais de uma semana sem botar a cara na rua, Joan também. Menos um.

            Agora éramos seis, como no romance da Maria José Dupré.  O Joan nunca mais foi nos encontrar no cemitério.  Ficamos com pena dele, mas nada podíamos fazer.
Vimos um túmulo que fora arrombado, que cena! Nossa como alguém tem a coragem de arrombar um túmulo, cara? Putz, aquilo fede, a gente é podre por dentro. A gaveta estava toda martelada, os ossos do defunto expostos. Aquela tarde fora especial, ficamos ali estudando o cadáver durante horas. Condenamos quem fez aquilo, mas gostamos muito da experiência, nos divertimos muito brincando com aqueles ossos, que eram de alguém que havia existido, que falou, riu, chorou. Engraçado, olhávamos aquilo, riamos, sem ao menos nos darmos conta que fatalmente estaríamos naquela situação um dia. Mania essa que a gente tem de achar que é imortal, de fazer aquela cara ridícula de peninha quando alguém morre. “ Fulano, morreu? Poxa, que pena... Como foi isso, meu Deus?”
Viva a hipocrisia humana.

            Lembro-me que nesta noite demorei muito a dormir. A imagem daqueles ossos retorcidos mexeu comigo, fiquei impressionado. Mas segurei a minha onda, não confessei a ninguém minha fraqueza. Eu já tinha agarrado a Rafaela e a Vanine, faltava pegar a Luciane. Eu não ia dar uma de sensívelzinho que ficou com peninha dos ossos do morto, ou melhor, da morta.
As meninas eram muito fáceis de se agarrar. Qualquer um de nós podia beijá-las, mas a Luciane não. Ela gostava de provocar, de instigar. Mas sempre caía fora na hora H. Pra mim, agarrá-la era uma questão de honra, e como vi que minhas táticas de menininho bonzinho não estavam adiantando, resolvi mudar de estratégia. Resolvi que seria mais insensível. Pelo menos por fora.

            Três sábados depois consegui agarrar a Luciane. Estranha essa coisa que alguns seres humanos têm. Essa estranha aptidão a gostar de ser levemente mal tratado. Você é bonzinho, legal, gentil. Não consegue porra nenhuma, mas se dá um desprezinho, pronto. Parece até que vira super herói. Depois que passei a dar umas desprezadas nela, a menina começou a me ligar, a me pedir favores...

            Luciane morava com a madrasta e o pai. Tinha um irmão mais velho que foi estudar fora, fazer mestrado. Um super cara mesmo o irmão dela.
Ela também era muito inteligente, sacava muito matemática e física, uma cabecinha brilhante. Eu era meio que fã dela, mas precisava disfarçar, porque senão seria mais um em sua mão.
           
A família dela estava para mudar de bairro, ou seja, ficaríamos sem mais um do grupo. Com ela fizemos diferente, rolou uma super despedida. Eu estava triste com a partida da Lu. Queria continuar vendo-a sempre, mas ficaria mais difícil com ela morando longe. Bem que tentou enrolar a gente com aquele papinho de “ Ah, galera! Eu continuarei vindo todos os sábados!”. Acreditamos e tudo. Ela até foi uns dois sábados, depois sumiu de vez...

Continuamos nossa rotina. Houve um sábado que rolou um cancelamento da reunião. O Roney e o Marcelo não podiam ir, aí desmarcamos, A essa altura qualquer um que faltasse já era um motivo pra se cancelar a reunião. Eles dois faltando, ficaríamos somente eu e as meninas.

Tudo bem, tudo  tranqüilo, reuniões rolando normalmente, eu voltei a dar uns pegas na Rafaela. Foi meio difícil no começo, ela ficou puta com o lance da Lu e quis me dar um castigo, mas depois acabou cedendo.
Não sei o que aconteceu nesse dia, mas transamos no cemitério depois da reunião. Sei lá, me deu uma puta vontade de comer a Rafa. Eu sabia que ela não era mais virgem, tinha um lance aí dela com o professor de história da escola. O cara estava comendo ela, segundo uma galera me disse.  Puta merda, a Rafa tem dezessete anos, eu tenho dezessete anos. De boa... Mas o professorzinho lá tem mais de trinta. Cara, esse professor é muito corajoso.

Comi a Rafa mais umas três vezes. Enjoamos um do outro. Nossas reuniões foram ficando cada vez mas esporádicas. Já nos víamos a cada quinze dias... Normal...

Estávamos lá, nós cinco, sem a Lu, na nossa última tarde de entretenimento – embora ainda não soubéssemos disso - quando vimos uma coisa super sinistra.
Havia um casal no cemitério, estavam discutindo, o cara estava dando uns bofetões na menina.  Nessa tarde não houve nenhum enterro. O cemitério estava praticamente vazio, estávamos um pouco afastados, mas víamos nitidamente as agressões do cara. Ficamos tensos, sem saber o que fazer naquela hora. Simplesmente nos calamos e ficamos ali olhando. Não sei porque, mas o cara não nos viu.  Aí ele saiu arrastando a  guria pelos cabelos e sumiram os dois naquele espaço imenso.

            Ficamos meio atordoados, Vanine começou a ficar nervosa, querendo ir embora. Como eles haviam sumido, sugeri a todos que continuássemos nosso papo. As meninas ficaram meio cabreiras, mas relaxaram depois.
Uns quarenta minutos depois vimos, de longe, o cara saindo do cemitério. Estava sozinho. Tenho certeza que todos se perguntaram pela moça, mas ninguém comentou nada. Fomos embora.

            Passou-se mais de um mês, nada de encontros, a galera estava se dispersando mesmo. Eu também já estava meio sem vontade de continuar aquilo.
Estava assistindo o jornal local, quando vi uma reportagem sobre uma garota desaparecida. Caralho! Era ela! Porra! O cara sumiu com ela no cemitério! Quem iria procurá-la ali? Pronto, fudeu. O cara matou a menina e a enterrou lá.  Não passaram nem cinco minutos e o Roney me ligou.  Todo mundo me ligou.
Ficamos desesperados, sem saber o que fazer. Tínhamos certeza que ela estava ali no cemitério, em algum buraco.
Vanine,  como sempre, só chorava, ensandecida “ Ele matou a menina! Meu Deus, e nós não fizemos nada!”
Ela tinha um pouco de razão, só que é meio complicado você se meter numa briga de casal, e além do mais, quem poderia adivinhar que o carinha ia apagar a moça?

            Foi aí que Roney deu uma sugestão inusitada: Teríamos de ir ao cemitério procurar o corpo da moça. Caso o encontrássemos, ligaríamos para a polícia, anonimamente é claro.
Fiquei muito puto, dei um verdadeiro chilique na hora, discordei, todos discordaram. Assunto encerrado. Por onde começaríamos a procurar?
Passou-se um tempo. Lá estava ela na TV de novo, como um verdadeiro fantasma, como se estivesse a implorar que fizéssemos algo. Afinal só nós sabíamos de seu falecimento. Dessa vez foi diferente, aquilo mexeu comigo. O cara está sendo o principal suspeito, mas sem corpo não há crime.
Eu podia acabar com aquilo. Eu podia.
Dormi mal aquela noite, sonhei com ela. Lembrei-me de um filme em que o cara seqüestrava uma moça, dopando-a com clorofórmio e a enterrava viva. Era com a Sandra Bullock, não sei porque fiquei com o filme na cabeça.
Acordei!

            Nem liguei pra turma, nem comuniquei aos meus pais. Avisei à polícia, contei o ocorrido. Pronto! Houve um verdadeiro rebuliço no cemitério. Durante dois dias nenhum morto entrava, nenhum morto saía. Os enterros foram cancelados. Dá pra imaginar um enterro sendo cancelado, ou desviado?
Todos os túmulos foram revistados, todos. Os defuntos devem ter se apavorado com aquilo.
Encontraram a porra do corpo. Caralho, acharam mesmo.
Saiu no jornal, fizeram autopsia, a mulher levou doze facadas e foi enterrada ainda viva.
Quatro dias depois ela voltara para o mesmo lugar.
Foi sepultada ali, às dezesseis horas. Todos fomos ao enterro.

            Quando tudo acabou, fiquei ali, olhando o túmulo dela. Colocaram uma foto sua na lápide. Que linda que ela era! Estava sorrindo.
Por um momento, a vi sorrindo para mim, como se fosse um sinal de agradecimento.
Mandei-lhe um beijo e saí. Mas volto lá todos os sábados para lhe visitar.
           







quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Voando alto.

Voando alto.


Tem gente que vive se fazendo de vítima. Perdeu pai, mãe, sobrinho e faz de tudo um grande drama. Ela não. Levava uma vida fudida, mas estava sempre ali, firme. Difícil algo derruba-la.

Fazia um enorme esforço para não perder seu bom humor de quase sempre. É claro, que algumas vezes, algo a emputecia. Isso acontece com todo mundo.
Morava com a irmã mais nova. Perto do lixão. Morar perto do lixão é foda. Tem urubu que não acaba mais, e gente, muita gente suja e sofrida catando lixo para viver. Irônico demais alguém viver do lixo dos outros, daquilo que, aparentemente não serve pra nada.
Mas atualmente, com tantas empresas trabalhando com reciclagem, a vida  desses catadores profissionais parecia ter algum sentido.
Duas mocinhas vivendo pertinho do lixão. Dureza...
A irmã de Marcela, Maiane, gostava de ficar ali em alguns horários – que ela havia decorado – olhando o pouso e a decolagem das aeronaves. Era uma boa diversão para ela, que sonhava em ser comissária.
Menina bem afeiçoada, estudiosa a Maiane. Seu grande sonho era conhecer um avião por dentro, vestir aquele uniforme de aeromoça, dizer aquelas palavras bonitinhas que elas dizem nos procedimentos de vôo.
Algumas vezes ela se maquiava, se arrumava e ficava imitando as comissárias. Via todos os filmes que tinham aviões, fazia uma idéia vaga do que era trabalhar dentro de um.
___ Senhoras e senhores passageiros, boa tarde. Sejam bem vindos! Avisamos que, por medida de segurança, é proibido fumar durante todo o vôo. Os aparelhos celulares deverão permanecer desligados e só ligados no saguão do aeroporto. Nosso tempo aproximado de vôo é de duas horas e vinte e cinco minutos. Eu sou Maiane, chefe de cabine e desejamos a todos uma excelente viagem. Obrigada!
E ficava ali, desfilando de um lado para o outro da casa. Se sentindo uma profissional de respeito, uma pessoa de respeito. Quando se é pobre, vez ou outra sair dessa realidade é como fumar um bom baseado. Deixa você bem leve.

Marcela, no auge de seus 22 anos, saía bem cedinho para trabalhar.  Aquele esquema massa de oito horas diárias, que quase sempre acabam em nove, e na seqüência encarar uma sala de aula. Repleta de gente desinteressada.
Tem pobre que quer vencer na vida, tem pobre que não. Tem pobre que acredita na educação, tem pobre que não. Marcela e Maiane acreditavam em um futuro mais legal que aquele presente infeliz que viviam.

A mais nova estudava pela manhã. Pela tarde ia sempre assistir os aviões pousando. Eram quatro pousos. Depois quatro decolagens. Era só o tempo da primeira galera descer, e da outra galera subir nos aviões. Voltava para casa e ficava esperando a irmã voltar. Fazia sempre a janta das duas, Marcela sempre chegava um pouquinho depois da novela das nove. Algumas vezes, nos finais de semana, se mandavam  pra casa de algum tio fingir que divertir-se-iam.

O motorista do ônibus que Marcela tomava todos os dias para o trabalho começou a se interessar por ela. Tudo bem que era uma moça meio desengonçada, mas via-se nitidamente, que era muito bonita. Depois de mais de um mês de paquerinhas e conversinhas moles eles começaram a namorar. Nas folgas dele, iam passear, e levavam a Maiane junto.

Em menos de um ano estavam morando juntos. Ronaldo, Marcela e Maiane. O motorista tinha um terreno, um pouco distante do lixão, mas no mesmo bairro e depois de construir a casa, levou as moças para lá.
A rotina deles era bem tranqüila, pouca coisa havia mudado. Cada um permanecia com suas atividades rotineiras e enfadantes A diferença é que agora havia um homem em casa.. Maiane gostava de Ronaldo. Tinham uma boa relação.

            Algumas vezes eles dois ficavam sozinhos em casa, Marcela trabalhava e estudava, era difícil estar em casa. O natural acabou acontecendo, Maiane e Ronaldo começavam a ficar próximos. Conversavam sobre tudo, sonhos, projetos de vida. Uma noite, ele levantou-se para fazer xixi, foi até a geladeira beber água na garrafa, quando deu de cara com sua cunhada saindo do quarto, semi nua, de camisolinha, com os bicos dos peitos totalmente à mostra.. Foi inevitável a excitação. Sentiu seu pênis latejando de tesão. Correu  para o quarto, acordou sua mulher e a comeu com fúria. Com a outra na cabeça.

            Resolveram fazer um churrasco num belo domingo, que estavam todos em casa. Ronaldo trabalhava tudo que era dia, inclusive os “santos”. Marcela cuidou de tudo, da carne, das cervejas, dos convidados. Umas dezoito pessoas compareceram à casa deles. Entre colegas de Ronaldo, das meninas e agregados.
Maior pagodão rolando, todos bem animados, cerveja que acaba, cerveja que chega... Pobre quase sempre está sem grana, mas quando se trata de cerveja. Todos se ajudam.  Algumas vezes Ronaldo se pegava olhando para Maiane. Dois de seus colegas de trabalho ficaram encantados por ela, ele nem a deixou que soubesse. Já tinha um estranho sentimento de posse pela moça.
Marcela era fraca pra bebida, ficou rapidamente alegre. E rapidamente foi dormir. Pronto, ali só acordaria para a vida no dia seguinte.
Foram todos embora, e Ronaldo e Maiane ficaram tomando o restante das cervejas. Ainda restavam algumas, talvez umas quatro. Ela estava no sofá, com as pernas cruzadas, e ele ali, bem a sua frente.

            Foi tudo muito rápido, Ronaldo foi pra cima dela, arrancou sua calcinha e a comeu praticamente à força, embora tivesse notado que a moça estava bem lubrificada. Ela tentou reagir, mas temia que se gritasse... A irmã acordaria. E a festa estaria literalmente acabada.
Foi possuída com muita força, violência mesmo. Ronaldo até a bateu, dizia em seu ouvido enquanto a comia que se falasse algo para a irmã a mataria.  “Você também é minha agora”.
Quando acabaram, ela foi direto para seu quarto, deitou-se do jeito que estava, ainda com o esperma do cunhado escorrendo pelas pernas. Escondeu a calcinha, encolheu-se e ficou ali, pensando no ocorrido.

E assim foram passando os dias. Ronaldo comia a mulher e a cunhada, diariamente. Ele até ficava um ou dois dias da semana sem comer a mulher, porém a cunhada...
Acontece que Maiane nutria por aquele homem um sentimento estranho. Ela o odiava, mas tinha ciúmes dele com sua irmã.Gostava de te-lo entre suas pernas, no fundo ela gostava muito.
Eles dois não tinham mais nenhum diálogo. Sempre que havia o momento dos dois, transavam e pronto.

            Marcela chegou eufórica do trabalho certa noite. Nem fora assistir aula, talvez nem fosse mais. Chamou os dois e deu a notícia, estava grávida. Milagrosamente não flagrara a irmã e o marido trepando em sua cama. Tinham acabado a transa do dia a pouco.
Ronaldo ficou olhando para ela, fingiu uma felicidade que não existia, porque ele não queria filhos, apesar de comer duas mulheres por dia. Maiane abraçou a irmã. Um abraço gélido, insosso, do tipo de abraço que não se dá em ninguém.

            A família precisaria se preparar para a chegada do bebê. Como o previsto, Marcela abandonou as aulas, ficava muito indisposta quando saía do trabalho. Os estudos podiam esperar, o trabalho é que não poderia ser largado de jeito nenhum. Contava muito com a irmã,para tudo.
Ronaldo passou a comer menos a cunhada. Eles costumavam transar sempre pela noite, quando Marcela estava na aula. Uma postura bem arriscada, que até então estava dando super certo.

            Maiane descobriu que também esperava um filho de Ronaldo. Contou a ele, que ficou furioso. “ Tire, se tiver esse filho eu dou um jeito nos dois!” Conseguiram o Citotec, ela inventou uma desculpa para a irmã, trabalho de escola na casa da amiga Fabíola. E foi mesmo pra lá. Tomou dois comprimidos e introduziu outros dois na vagina. Sentiu dores horrendas, mas não surtiu efeito.
Soube de uma mulher que fazia abortos com sonda. Era uma auxiliar de enfermagem aposentada, que ganhava a vida tirando os filhos dos outros na marra.
Com muito custo Ronaldo conseguiu a grana para que ela fosse lá. Ela foi, pela noite. A mulher, que mais parecia um açougueiro, introduziu uma espécie de cano fino entre suas pernas e lhe disse que não ficasse em repouso, que no máximo, em 48 horas estaria botando tudo pra fora.
Ela botou realmente muita coisa pra fora, perdeu muito sangue. Ainda precisava fazer a curetagem. Inventou outra desculpa para a irmã e foi se internar na maternidade.

            Com o passar dos dias Maiane sentia dores abdominais fortes. A mulher da sonda falou que era normal. A barriga de Marcela crescia. Teria uma menina, o nome seria Maria Helena, em homenagem à mãe delas.
Ronaldo deu uma rejeitada em Maiane de alguns dias. Antes de completar o resguardo dela, ele a procurou. Ela implorou para que não fizesse nada, pois ainda sentia dores, ainda sangrava, ele ficou ainda mais excitado. Ela urrava de dor, e ele tapava sua boca, se divertindo com aquilo tudo.

            Numa manhã de agosto nasceu Maria Helena. Maiane já esperava outro filho de Ronaldo, que já estava a providenciar outra ida ao “açougue” para ela. Tudo de novo, sonda, sangue, mais sangue, maternidade. Dessa vez ela não teve a mesma sorte. Teve uma hemorragia gigantesca. Tinha oscilações de pressão arterial, delírios, suava, o coração ora disparava, ora desacelerava bruscamente. Uma cena triste de se ver.
Mas resistiu. Voltou para casa. Dessa vez Marcela desconfiou, fez a irmã lhe confessar tudo, ou melhor quase tudo. Maiane admitiu que ficou grávida, que tirou o bebê. Só não admitiu que o pai da criança era o marido da irmã.
Marcela ficou decepcionada, passou vários dias sem falar com a irmã. Deu-lhe uma lição de moral inesquecível. “ Irresponsável, sai dando essa buceta por aí, me aparece grávida e nem tem a coragem e a decência de assumir o seu filho.”
No outro dia apanhou de Ronaldo por ter contado tudo à Marcela.

            Resolveu que era a hora de começar a pensar em sair dali. Começou a trabalhar numa clínica, como recepcionista. Entrou no curso de comissariado, que ficava no aeroporto. Estudava inglês em casa mesmo, quando lhe deixavam. Ninguém sabia do curso de comissariado, era um segredo seu. Concluiria junto com o colegial, caso contrário, perderia o diploma, já que precisava ter o certificado de segundo grau para se tornar uma comissária de bordo.

            Sempre que via o cunhado tinha ânsias de vômito. Ele ainda a comia sempre que podia. E ela deixava, sempre. Fechava os olhos e esperava que ele acabasse para poder ir se lavar. Só que agora, estava tomando pílula. Não engravidaria novamente. Sabia que morreria se isso acontecesse de novo. Da última vez o médico lhe informou que, caso ela engravidasse novamente morreria parindo ou abortando.
E ela ainda tinha muitos planos para sua vida, não podia morrer por qualquer coisa.
Acabou o curso, acabou o colegial, agora podia sair dali. O dinheiro que ganhava na clínica já daria para ir para algum lugar. Antes ela usava para pagar o curso, agora estava finalmente livre.
            Nem comunicou nada à Marcela, muito menos a Ronaldo. Sentiu mais pela sobrinha, ainda tão inocente. Ganhou o mundo.
Havia muitos aviões a sua espera.

Cíntia Silva.

           





quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Flor de lis.


Flor de lis.


Debaixo do mamoeiro ela saboreava o fruto com semente e tudo. Era uma daquelas tardes de preguiça, em que se almoça e se lesa todo o juízo.
Lambuzou-se bastante e adormeceu. Um sono profundo, sem direito a sono, nem pesadelo. Apenas apagou.

            Quando abriu os olhos, deu-se conta que já era fim de tarde. Sua barriga não estava mais tão cheia. Mas a leseira não permitia que se levantasse, ainda.
“Levanta daí Sebastiana!” – Era Dona Maria Isabel, já solicitando a presença da filha para preparar o jantar. A moça levantou. Não que o quisesse, mas era necessário.
A casa de taipa era espaçosa, quatro vãos grandes. O cheiro da comida se alastrava pela vizinhança, as meninas da casa eram muito prendadas.
Sebastiana era a mais velha de oito irmãos. O primogênito de Dona Maria sempre ia para a roça com o pai, trabalhar na plantação de milho e mandioca.

            Depois de feitas as tarefas, as meninas iam para a escola. Sebastiana já estava começando a se preocupar porque aquele seria seu último ano. Se quisesse e se seu pai, Seu Manuel, a deixasse estudar, teria que ser em Própria, cidade vizinha. Era lá que ela teria que concluir o segundo grau. Não que seu pai implicasse com os estudos das filhas. Não era isso. O que ele tinha era preocupação mesmo de deixar suas filhas saírem de perto de casa. “A estrada é muito perigosa, minha filha. Mas vamos ver, seja o que Deus quiser.”
Sebastiana dividia seu dia em etapas. Pela manhã ia lavar roupa no rio, onde aproveitava para se banhar. Depois voltava para ajudar no almoço, comia e lá ia ela comer mamão. Dormia, dormia... Levantava, ia cuidar do jantar, depois escola.
Gostava de estudar. Queria muito sair dali, como tantas outras moças da sua idade. Mas estava particularmente animada aquela tarde. Era sexta-feira, e no sábado haveria um baile.

            Os bailes em São Brás eram verdadeiros acontecimentos. Ocorriam na única discoteca da cidade, e muitos jovens iam lá se divertir. Sebastiana queria muito ir, mas sabia que teria de dar um jeito, seus pais não permitiriam que fosse.
São Brás é uma cidade que não evoluiu com o tempo. Ainda tem discotecas, que terminam sempre meia-noite, ainda tem gente que acredita que as filhas casam virgens.
Os pais de Sebastiana certamente acreditam que ela nunca transou com ninguém. Não é verdade. Ela sempre deu seus jeitinhos... Já deu pra uns quatro caras, todos de outras cidades, não podia se expor tanto. Sabia usar camisinha, sabia tomar pílula. Uma moça do interior esperta.

            No sábado, ela fez todos os seus afazeres, tomou seu banho e foi deitar. Enfim, aquela ladainha de sempre, teve que esperar que todos dormissem, para que pudesse sair pela janela. Suas irmãs, as mais velhas eram medrosas, nem ousavam fazer esse tipo de coisa. Afrontar Seu Manuel? Nem pensar. Ela teria de ir sozinha mesmo, nada de cúmplices.
Arrumou-se, pôs um vestidinho curto estampado, pegou o pacote de camisinhas, enfiou na calcinha e foi tratar de esquecer a vida por um instante.

            O baile, como sempre animadíssimo, contava com a presença das moças mais modernas, descoladas. Dona Salete, dona do estabelecimento, sempre caprichava na decoração. Antigamente eram luzes coloridas, quando se chegava via-se logo aquele monte de luzes coloridas sem piscar, na portaria. Hoje em dia, tem até fumacinha que ajuda a criar um clima gostoso.
Sebastiana entrou e começou a procurar alguém que pudesse lhe fazer uns carinhos.  A música estava bem a contento, o som pedia por sexo. Ela também.
Ela queria muito uma cerveja, mas não tinha mais um centavo, já tinha sido um sacrifício conseguir o dinheiro da entrada, roubou do pai.
Não foi difícil conseguir quem lhe pagasse umas.

            Lá pela quinta cerveja ela já via todo mundo bonito. Estava louca pra transar. Mirou no cara que lhe pagou as cervejas, queria agradecer-lhe. Lançou-lhe um olhar sugestivo, ele veio ao seu encontro e começaram a dançar intimamente. Precisavam sair dali. Foram até o carro, o cara arrastou até um matagalzinho próximo e lá transaram como dois loucos. Gastaram todas as camisinhas que tinham, era a hora de ir embora.
Ela foi para casa rindo, levemente embriagada, saciada. Entrou devagar, adormeceu logo.

            Era sempre assim, Sebastiana esperava ansiosamente por  cada baile, cada procissão, cada quermesse. E assim foi até o término do ano letivo. Com muito custo conseguiu com que seus pais lhe deixassem estudar fora. Agora tudo estava mais fácil.
Todas as noites ela pegava o ônibus cedido gentilmente pela prefeitura e ia estudar. Era gostoso estudar, mas a mocinha sabia que não seguiria qualquer carreira. Não seria médica, advogada ou dentista, não seria professora. Queria mesmo é ganhar dinheiro com o que sabia fazer de melhor: sexo.
Estava tudo decidido, a partir daquele momento, iria ganhar dinheiro com os seus talentos. O que foi muito fácil.

            Depois de algumas orgias – ela topava tudo- comprou um celular, colocou até anúncio no jornal com seu telefone a disposição de clientes. “ Morena gostosa, peitinho duro e bunda grande. Prometo levar você à loucura. Aceito homens, mulheres e casais.” Foi uma loucura mesmo, o telefone não parava de tocar. Já era a hora de sair de casa, precisava de um pretexto, um emprego talvez.
Seu anúncio foi um sucesso, era difícil encontrar garotas de programa ali. Muitos homens e casais a procuravam. Atendeu somente a uma mulher até então. Era uma mulher estranha, que lhe pagou muito bem só para ser chupada.

            Conseguiu sair de casa. Agora estava livre durante o dia e a noite para atender seus clientes. Investiu mais no visual, nem aprecia mais aquela mocinha bobinha de interior. Estava com cara de puta mesmo. Uma bela puta. Sempre atendia seus clientes com uma máscara. Ficava muito sensual, e até então todos haviam gostado.
Atendia todos os horários, uma verdadeira plantonista. Estava lucrando muito.
Algumas vezes ficava cansada, normal. Mas nunca recusava um chamado, a menos que estivesse ocupada.
Uma tarde, uma mulher lhe telefonou. Marcaram um encontro, transaram muito e depois a cliente lhe ofereceu uma proposta, aparentemente irrecusável. Tinha adorado a Sebastiana, que atendia por “Solange”, e queria que ela fosse para a capital, fazer programas de luxo.

            Faltava uma semana para ela partir quando atendeu um telefonema. Um homem estava querendo seus serviços. Ela nem estava muito a fim, mas precisava arrecadar o quanto pudesse para a viagem. Não sabia como iria ser na capital, precisava se prevenir. Marcou o encontro em seu apartamento.
Preparou-se, colocou sua máscara e ficou esperando pelo cliente.
O homem chegou. Tocou a campainha, ela perguntou a senha, ele disse “amora”.
“Entre querido!”
Ela já estava muito à vontade na cama, como sempre com sua máscara. O homem então se aproximou.
Seu sangue perdeu-se da face e do corpo quando o viu. Era Seu Manuel, seu pai, ali, esperando para transar com ela. Por um breve momento pensou. Tinha de decidir rápido. “ Não posso transar com meu pai!!!” “ Que merda!”
Também não podia contar-lhe que virara puta. Abriu uma cerveja, deu a ele. Abriu outra pra si.
E teve ali, a experiência mais traumatizante de toda a sua vida, Seu pai lhe comeu de diversas formas. Pagou, foi embora envergonhado. Não conversaram, ela não podia falar, ele reconheceria sua voz.
Ficou ali parada, com a máscara no rosto, atônita, muda, chocada. Decidiu ir até o fim, não podia retroceder. Queria sair dali, queria ir .
Dessa vez adormeceu com muito custo. Não atendeu mais ninguém aquela noite.
Pegou o primeiro ônibus para a capital. Enquanto viajava, relembrou os momentos que teve com seu pai. As suas lições, as conversas... Derramou algumas lágrimas. Sabia que jamais poderia olha-lo outra vez. Despediu-se ali dele, da família, de tudo.

            Chegou à capital duas horas depois. E tomou outra decisão importante. Jamais voltaria a usar máscaras.
Sabia bem que a vida é uma caixinha de surpresas...

Cíntia Silva.