Um café.
Noite difícil. A cerveja já não desce com tanta facilidade...
Hoje eu estava pensando no dia que tive. Aquele café vagabundo que tomei na padaria. É sempre assim. Saia de casa todos os dias, tomava meu café na padaria de Carlinhos e ia trabalhar. É verdade que seria bem melhor tomar meu café em casa, tipo, mais barato também, mas preferia ir à padaria.
Trabalhava numa loja de confecções. Era estoquista. Ficava lá todos os dias arrumando a bagunça que os vendedores faziam. Nos dias de contagem era uma loucura... Simplesmente tinha de contar todos os itens do depósito, um por um. O que era uma merda, porque sempre faltava alguma coisa.
Um dia aconteceu algo estranho na padaria. Estava eu lá, tomando meu café, como sempre, e entrou uma mulher no recinto. Era uma mulher aparentemente pobre, simples mesmo. Ela entrou na padaria e pediu para usar o banheiro. Até aí normal. Daí estava ela saindo quando ouvimos um pequeno estrondo. Tipo daqueles que a gente ouve quando cai uma bolsa de moedas. Pronto! Caiu um saco grande de moedas da calcinha da mulher, que logicamente havia sido roubado de Carlinhos, acredito que ele guardava suas moedinhas perto do banheiro, que ficava dentro da padaria. Fudeu!
Eu fiquei lá olhando aquilo tudo, inerte. A mulher ficou toda errada, tipo sem jeito mesmo. Seu Carlinhos disse que ia chamar a polícia, a mulher, Rosa, começou a chorar, dizendo que aquelas moedas tinham sido fruto do seu esforço de pedinte. Um verdadeiro fuzuê.
Fiquei ali, olhando aquela mulher desesperada, com sua roupa imunda, acredito eu que não saiba o que é um banho há meses. Sua barriga era flácida, ela vestia uma camisa de propaganda eleitoral e uma saia rosa de tecido bem vagabundo, um semblante era de caos.
Sua vida devia ser uma verdadeira merda. Porra, feia, mal feita de corpo, desprovida de oportunidades. Falo desprovida de oportunidades porque não deu pra perceber se ela era inteligente. O fato de ter afanado as moedas de Seu Carlinhos não a fazia burra. Teria ela querido dar uma de esperta? As pessoas espertas normalmente não são inteligentes. Só que eu não sei se ela quis de fato dar uma de esperta ou se sua necessidade de sobrevivência falara mais alto. Acho que nunca irei saber. O fato é que sua vida era cruel.
Terminei meu café, depois da confusão. Ela fora presa, em nome da lei. Tive dó, aquela cena me cortou realmente o apetite, mas como não gosto de jogar comida fora engoli tudo ali, a seco. Sei bem o quanto me custa um café da manhã.
E aquela mulher provavelmente foi levada presa com fome.
Quando cheguei à loja e fui arrumar o estoque fiquei pensando que faço parte de uma maioria que vive pra se fuder. A mulher da padaria deve ser parte da galera que se fode pra viver.
Hora de almoço é sempre uma bosta. Eu tenho direito a duas horas de almoço, como todo bom operário. Mas nunca consigo tira-las. Nunca. Eu sempre saio mais tarde e volto mais cedo.
Resolvi olhar o estoque minuciosamente. E fiz umas contas, avaliei umas roupas. Três peças da loja pagavam meu salário. E eu pensei que estava ralando muito e ganhando pouco. Foi um momento de descontentamento, desses que é normal sentirmos ao longo do dia. Aí lembrei que fui obrigado a tirar uma roupa da loja para trabalhar, e paguei por ela. Lá na loja é assim, precisamos fazer a propaganda. Quando queremos comprar alguma peça, temos um desconto significativo de 10%. O uniforme da loja foi comprado com um desconto um pouco maior.
A pobre moribunda da padaria me alertou para o fato de que eu estava no controle do controle. Era eu quem fazia a contagem de tudo, tudo que entrava, tudo que saía. Era chegada a hora de mudanças. E caro leitor, eu vivo na pindaíba. Estou sempre no vermelho. Quando estão faltando uns dezoito dias para sair meu salário eu já estou na merda! Devendo a alguns amigos e a Seu Carlinhos, que sempre me deixa pendurar minhas primeiras refeições do dia.
Olhei aquelas roupas todas e resolvi que ia tirar proveito da situação. Loja de grife é outra coisa. Todo mundo quer uma calça jeans de qualidade, e as calças na loja onde trabalho são caríssimas. Comecei a negociar. Passei a roubar as calças do estoque para revende-las. Vendia pela metade do preço da loja, e ainda lucrava muito. Pronto! Comecei a me sentir mais feliz. Podia sair com as gostosas das redondezas despreocupado, conseguia pagar as cervejas, o motel e ainda voltava pra casa de táxi.
Estava tudo aparentemente lindo. Eu ia trabalhar mais feliz, disposto. Passaram-se alguns meses e nada havia vazado. Até que um dia...
Bem, a gerente regional veio para uma visita. Feitos todos os balanços e feitas todas as contas foi constatado um rombo. Meu cu começou a tremer, eu sabia que ia sobrar pra mim, talvez... A chefona da região convocou uma reunião extra oficial, a fim de discutir atos de ilicitude na empresa.
Várias roupas haviam sumido do estoque, e ela queria solucionar a situação. Feita a reunião, foi decidido que os funcionários pagariam o prejuízo. Ficou dividido tudo em parcelas, para que todos pudessem arcar, e obviamente todos ficaram putos da vida, inclusive eu.
A gerente da loja fora responsabilizada por tudo. Ela é responsável pelas bolsas da turma. Todos os dias, antes de sairmos, ela é obrigada a olhar a mochila de todo mundo. Pros casos de alguém querer furtar alguma coisa. Ironicamente ela nunca olhava a minha. Talvez pelo fato de saber que eu era o responsável pela organização do estoque. Mas agora, depois dessa reunião fatídica, ela certamente ficaria na minha cola, a minha bolsa era a única que passava desapercebida. Agora, não mais.
Meu desfalque foi grande. O equivalente a uns três anos de salário. O problema foi realmente sério para ela. E eu senti que ela sacou que a merda toda foi feita por mim. Era só uma questão de recolhimento.
De recolhimento de provas.
Depois de definido o que cada um teria de pagar pelo prejuízo percebi que ainda estava no lucro, mas isso era eu, caríssimo leitor. Era eu. A galera, toda inocente não pensava da mesma forma.
Começou então o complô. E, simultaneamente, recomeçou tudo. Digo tudo porque eu não parei de afanar calças.
A gerente tinha seu horário, eu tinha o meu. E é claro, eu tinha meu plano B.
Ela passou a revistar minha bolsa, logicamente. Mas aí, eu comecei a fazer diferente. Sempre que podia, ia até o vestuário, e vestia as roupas por baixo das minhas. Tornou-se ainda mais infalível. Parecia o plano perfeito.
Isso, se eu bem soubesse que não existem planos perfeitos...
Essa roubalheira toda foi que foi. Até que chegou o dia.Sempre chega o dia da verdade.
Comigo não seria diferente. Depois de feito outro balanço, constatou-se novamente o desfalque. Tranqüilo até então, porque ninguém podia provar nada. Apesar de eu saber que a gerente sabia, apesar de quase apostar que todos sabiam que era eu. Afinal, todos eram inocentes.
Continuei vendendo as peças. E lucrando, rapidamente, como se fosse um traficante. Eu vendia tudo como se fosse mel.
Um dia, vendi duas calças e uma blusa para uma garota. Era uma dessas garotinhas classe média, que tinha o tipo idiota, fútil, burra.
Ruim subestimar os outros, também aprendi isso. A menina era amiga da minha gerente. Ela descobriu a porra toda, se fez de rogada e pediu à amiguinha para vir até mim e fazer umas comprinhas.
Lascou tudo. Fui preso. Senti-me como a mulher da padaria, pequeno feito uma formiga, indefeso, sem perspectivas, com cara de injustiçado. Engraçado, fazemos as merdas, e, quando descobrem fazemos cara de vítimas. Senti uma vergonha enorme, e uma raiva muito grande também. Lá no fundo, eu sabia que estava todo mundo feliz com aquilo, vibrando com minha situação caótica.
Sei que vou pagar por isso. Ainda que não julgue merecer. Percebi que a linha que permeia a sanidade e a delinqüência é muito tênue. Comecei a notar que sou capaz de muitas coisas que julgava não ser. Notei que sou capaz de matar por várias razões, que não se resumem a “legítima defesa”. Se eu pudesse mataria aquela gerente de merda que se preocupou em me ferrar. Acho que me mataria também por ter permitido que isso tudo acontecesse, eu dei razões a ela, a partir do momento que me senti infalível.
Eu já tomei vários cafés na padaria de Seu Carlos, minha última conta foi de $47,50. Como fui demitido por justíssima causa, mamãe teve de pagar a ele. Seria muito vergonhoso para mim, saber que a conta da padaria não tinha sido paga. Engraçado um ladrão se sentir assim, mas eu me sentia.
Passaram-se mil e poucos dias, até que finalmente eu saí da prisão. Era hora de pensar no que estaria por vir.
Era hora de tomar um belo café. De preferência na padaria de Seu Carlos.
____ Por favor, café com leite e pão com manteiga.
Cíntia da Silva.
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